Opinião
 



Faltou consenso para salvar o planeta


Laudenice Oliveira*
  

Nos últimos anos, a natureza tem se mostrado bastante atingida com a forma com a qual homens e mulheres exploram os seus recursos naturais. A lógica que o capitalismo adota para garantir o seu desenvolvimento mundialmente deixa marcas inreversíveis no que se refere a proteção do planeta e suas riquezas naturais. Hoje, a crise de recursos hídricos é uma realidade, a água para o abastecimeno humano já é um grande problema em vários continentes. As mudanças climáticas apontam para efeitos devastadores caso não tomemos decisões importantes para proteger a nossa biodiversidade. Lembrando ainda, que os processos acelerados de desertificação colocam em risco a produção de alimentos no mundo inteiro.
 
Todos esses fenômenos e acontecimentos nos mostram a necessidade premente de cuidar melhor do nosso planeta. Um cuidado que as diversas nações do mundo já perceberam que não podem deixar de considerar quando planejam suas ações de desenvolvimento. Entretanto, entre perceber e adotar medidas necessárias e práticas para construir um desenvolvimento sustententável há uma grande distância. Foi o que nos mostrou a XV Conferência das Nações Unidas Sobre o Clima (COP XV), realizada entre os dias 7 e 18 de dezembro passado, em Copenhague, Dinamarca. Os líderes de 195 países alí reunidos não conseguiram chegar a um acordo climático global para reduzir a emissão de gases de efeito estufa. O máximo que conseguiram foi empurrar as decisões práticas para a próxima conferência que acontecerá no final deste ano, no México. Em duas semanas de discussões, restou apenas um documento de intenções. O poder econômico dos países mais ricos foi maior do que a necessidade de se salvar o planeta e consequentemente a humanidade.
 
Podemos dizer que foi um resultado frustante, pois não se chegou a nenhum consenso sobre as medidas a serem tomadas para mudar os drásticos prognósticos sobre as mudanças climáticas. O capitalismo se sobrepôs à necessidade de pensar o desenvolvimento a partir da sustentabilidade da terra com sua biodiversidade. Diante  da dúvida de sugerir novas tecnologias para substituir determinadas ações práticas ou manter o lucro das indústrias, comércio e os diversos segmentos econômicos, optou-se em deixar para o futuro essas decisões. Quem sabe, até lá se encontre uma forma de unir práticas sustentáveis com o lucro, já que no cerne do capitalismo, este último é o mais importante.
 
Enquanto isso, continua em risco a vida no planeta, em particular a nossa vida e as futuras. Individualmente, o que podemos fazer é repensar os nossos hábitos de consumo já que muitas vezes somos levados e levadas a comprar e levar para casa coisas que nem sempre é necessária. Precisamos, também cuidar da natureza e dos espaços onde vivemos e frequentamos. Cobrar dos órgão públicos e dos/as dirigentes políticos ações que busquem a preservação ambiental e a melhoria das condições de vidas das comunidades mais pobres, já que são elas as pricipais vítimas dos fenômenos da natureza, provocados pelo seu desequilíbrio.
 
Do ponto de vista das políticas voltadas para o meio rural, é importante lembrar que em nosso país as famílias agricultoras vêm assumindo o papel histórico de manejar e preservar a natureza com condições de atender as nossas necessidades. A agricultura familiar e camponesa tem traçado uma trajetória de práticas agroecológicas para a produção de alimentos saudáveis numa perspectiva de preservação da biodiversidade. Portanto, é importante o incentivo e o apoio nas políticas de financiamento para essa agricultura que interage tão bem com a natureza e com o ser humano, sempre dentro do marco da sustentabilidade.
 
* Laudenice Oliveira é Jornalista do Centro Sabiá



Agricultoras Fazem Economia Solidária e Garantem Uma Alimentação Segura e de Qualidade

José Aldo dos Santos*

No Semi-Árido pernambucano, a agricultura familiar agroecológica e aquela em transição para a agroecologia têm buscado apropriar-se das diferentes potencialidades dos sistemas agrícolas e pecuários sustentáveis, seja através do beneficiamento de uma produção diversificada, seja através da comercialização a partir de canais diferenciados, com destaque para as “Feiras Agroecológicas”.

Entre as famílias agricultoras, chama atenção o fato das mulheres, em municípios diferentes como Bom Jardim e Triunfo, no Agreste e Sertão de Pernambuco, estarem desenvolvendo experiências que já apresentam resultados concretos nas dimensões ambiental (solo, vegetação, animais, etc.), sócio-cultural e econômica, sobre a qual trataremos aqui de enfocar alguns aspectos. Para situar o contexto dessas experiências, iremos conhecer um pouco da vida de mulheres que fazem do Semi-Árido um lugar de otimismo.

A agricultora Lourdes Negromontes, há cerca de 50 anos é moradora da comunidade Santa Cruz, no município de Bom Jardim. Ela trabalha com a terra desde os dez anos de idade. É, na região, uma das poucas mulheres que assumem a chefia do sistema de produção, do beneficiamento e da comercialização dos produtos agroflorestais.

Dona Lourdes pratica a agricultura agroflorestal há oito anos e confessa que isto mudou a sua vida pra melhor. Mas nem sempre foi assim: “Meu pai foi quem me ensinou a plantar em roçado queimado. Aprendi que onde existisse pé de fruta não dava para plantar, por isso a gente cortava e queimava o solo”.  Sua plantação se resumia ao cultivo de feijão, milho e roça, e não era possível comercializar seus produtos. O resultado das plantações era unicamente para o consumo da família:“A gente só plantava para comer, não tinha esse negócio de vender, porque a gente não lucrava nada”. Durante muitos anos foi assim, a agricultora plantava para comer e não tinha renda financeira com o seu trabalho. Para ajudar na renda familiar, Dona Lourdes também costurava, confeitava bolos e criava animais para vender.

A decisão de ‘inovar’ o seu trabalho partiu dela mesma, que não hesitou em procurar informações e participar de reuniões para saber melhor a respeito da agrofloresta. “Fui a primeira vez e gostei. Daí por diante, comecei a ir sempre às reuniões do Sindicato e vi que a agrofloresta dá certo”. Dona Lourdes iniciou com os sistemas agroflorestais numa área de 200m² e recebeu apoio e orientação do Centro Sabiá para investir na sua terra e manejar a plantação sem agredir o solo e a natureza. A agricultora notou a melhora da sua área, diversificou o número de plantas e iniciou também a criação de animais. Dona Lourdes também contou com a ajuda dos filhos no manejo das plantações.

Com esse novo jeito de plantar, ela pôde utilizar o produto do seu trabalho para fazer receitas e vender na feira agroecólogica. “O que a gente tem agora dá para comer e pra vender, só gastamos com açúcar, farinha e goma e quando a feirinha é boa, chegamos a lucrar mais de R$100,00”, conta ela.

Hoje, Dona Lourdes tem, com o suor de seu trabalho, o retorno que tanto merece, complementando sua renda com seus doces e bolos. Ela participa das feiras e lá recebe pelo que vende e pelo que tira da sua terra. A agricultora, que adora aprender e participar, tem hoje na agricultura sua principal fonte de renda e quer melhorar cada vez mais naquilo que ama fazer. Numa pesquisa realizada pelo Centro Sabiá foi verificado que, em 1999, Dona Lourdes tinha uma renda mensal líquida de R$190,00. Após cinco anos, essa renda subiu para R$829,00.  “A gente mudou (...) Eu tenho mais amor pelas coisas. Quando vejo um pé de planta que tá meio fraquinho, dá vontade de chegar lá e ajeitar para vê-lo crescer bonito!”

A agricultora Ivonete Lídia Vieira  reside numa área pequena, localizada no Sítio Baixa das Flores – Município de Santa Cruz da Baixa Verde. Até o ano de 1997, ela cultivava em sua área apenas café para o consumo familiar. A única fonte de renda de Ivonete era trabalhar no alugado em propriedades vizinhas, aplicando venenos nas plantações de cana-de-açúcar. Essa atividade comprometeu por diversas vezes a saúde dela.

Em meados de 1997, com o apoio da Associação de Desenvolvimento Rural Sustentável – Adessu-Baixa Verde, Ivonete começou a incorporar as práticas agroecológicas a sua propriedade. No início, tinha certa resistência à agricultura agroflorestal. Observando os resultados positivos dessa intervenção, que transforma terras improdutivas em cultiváveis, ela e sua família passaram então a intensificar o trabalho com agrofloresta. Hoje, passados oito anos, existem em seu terreno mais de 50 espécies, entre nativas e frutíferas. Para melhor aproveitar sua produção, que é diversificada e constante, porém em pequena quantidade, Ivonete resolveu beneficiar toda a produção na propriedade. Dessa forma, consegue agregar mais valor aos produtos e obtém um lucro satisfatório, diversificando não apenas transformá-los e apresentá-los aos mercados: “Com a produção de um único pé de cajá, eu apurei aproximadamente dois salários mínimos, fazendo polpas, doces, geléias, licores e sucos. E se tivesse um freezer teria ganhado muito mais”.

Com um espírito inovador, ela está sempre criando receitas novas “Antes eu usava a palma apenas para alimentar os animais. Hoje, sei que ela serve para alimentação humana porque é rica em vitamina A, e também auxilia no tratamento de algumas doenças. Da palma eu aproveito tudo: vendo o fruto, faço sucos, geléias e também cocadas. Com a folha eu faço desde saladas até farofas”. Devido ao sucesso de suas receitas, sempre participa em programas de rádio, nos quais dá dicas de como ter uma alimentação saudável aproveitando os recursos existentes na região. Freqüentemente ela também é convidada para assessorar cursos de beneficiamento em outras instituições.

A comercialização dos produtos por ela beneficiados é realizada na Feira Agroecológica de Serra Talhada, localizada no Sertão Central de Pernambuco. Nesse espaço, são comercializados produtos da agricultura familiar, produzidos sem agrotóxicos nem adubos químicos. Tudo é produzido de forma saudável e sustentável. Considerada uma referência no campo da produção e beneficiamento de produtos agroecológicos, a área de Ivonete é visitada constantemente por agricultores, pesquisadores, técnicos de vários municípios do Nordeste, de outras regiões do país e de outros países. Ela ressalta que este novo jeito de trabalhar a agricultura proporcionou uma melhoria na renda e na qualidade de vida de sua família. “Hoje, temos hábitos alimentares saudáveis, vendemos e consumimos produtos limpos e de boa qualidade, mas tudo isso só foi conquistado quando aprendemos a conviver com a nossa terra.”

Diferentemente de D. Lourdes Negromontes, Ivonete começou há pouco tempo a fazer comercialização direta. Numa pesquisa realizada, em 2003, pelo Centro Sabiá, ela apresentou renda média mensal  de R$ 160,00. Pode-se perceber aí uma grande diferença entre as rendas auferidas por ela e D. Lourdes, que, além do maior tempo de experiência, comercializa no mercado da capital do estado, onde é maior a demanda dos consumidores pelos produtos agroecológicos.

Outro aspecto a ser observado na estratégia econômica das duas agricultoras é a melhoria do autoconsumo. Tanto num caso como no outro, evidencia-se a diminuição de gastos com a compra de alimentos e uma melhoria na qualidade e na diversidade da dieta da família.

O Papel de Multiplicador/a de Agricultores e Agricultoras nos Espaços de Comercialização Agroecológica

Com o objetivo de estabelecer um recorte no que diz respeito à questão econômica no processo de sistematização do Espaço Agroecológico (feiras agroecológicas), o Centro Sabiá realizou um levantamento sobre o custo da comercialização dos agricultores que desenvolvem Sistemas Agroflorestais em suas propriedades.

Este levantamento foi realizado nos meses de agosto e setembro de 2003, onde obtivemos informações referentes ao faturamento semanal dos agricultores e seus custos habituais com transporte, fundo de feira e outros. Dentre estes, foram mencionados: venda de produtos de terceiros, aquisição de sacolas plásticas e outras embalagens, gastos com manutenção das bancas, compra de batas e bonés, pagamentos de empréstimos pessoais feitos ao fundo de feira, entre outros.
 
As informações obtidas nos dão uma idéia aproximada da renda líquida mensal dos agricultores participantes dos Espaços Agroecológicos (E.A.), não podendo ser adotadas como padrão de renda, mas podendo ser considerado como uma amostragem, já que nem todos os agricultores participaram do levantamento, sobretudo aqueles das outras associações parceiras. Além disso, o levantamento aconteceu em um período curto, dois meses.
 
As tabelas que serão apresentadas a seguir nos mostram a Renda Bruta Total, obtida por cada agricultor durante os meses da pesquisa. Dessa renda, são subtraídos os custos de transporte, venda de produtos de outros associados e outros custos, obtendo-se assim a Renda Líquida Total e, por fim, a renda mensal estimada. As porcentagens representam o valor de cada item em relação à Renda Total Bruta.
 


O Espaço Agroecológico das Graças, bairro da cidade do Recife, é o mais antigo, tendo sido constituído em outubro de 1997. Diante deste histórico, este se apresenta mais consolidado, tanto em termos de organização quanto em termos de renda. Neste Espaço, todos os agricultores estão obtendo renda mensal acima de 1 salário mínimo, sendo que, pelo menos quatro deles têm renda acima de R$ 1.000,00 por mês.
 
Para fazer um comparativo desta evolução podemos observar os dados de uma pesquisa realizada pelo Centro Sabiá, no período de setembro de 1998 a agosto de 1999, no Espaço Agroecológico do Bairro das Graças, apresentado abaixo.

Utilizando os valores obtidos para a renda mensal de cada agricultor, podemos estimar que a renda mensal no coletivo do Espaço Agroecológico das Graças gira em torno de R$ 824,95, sendo que há 4 anos atrás esta média estava em R$ 305,91

O transporte é o item que representa o maior custo, na maioria dos casos. Isto se dá, principalmente pelo fato de que todos os agricultores moram em outros municípios e devem deslocar-se até o local da feira. seja em Recife ou em Serra Talhada. Em alguns casos, para diminuir os custos com este item, os agricultores buscam se articular em grupos para a divisão das despesas de transporte.

Como destaque, chamo atenção para a evolução da renda das famílias de agricultores em evidencia nas tabelas 1 e 2.  A título de exemplo podemos destacar a família de Jones e Lenir. Na primeira pesquisa (1998/1999) eles tinham uma renda media mensal de R$ 573,50, já na segunda pesquisa (Ago./Set - 2003) apresentaram uma renda media mensal de R$ 1.291,00. Podemos concluir que nesse período ocorreu um acréscimo na renda de 225%, essa evolução nos mostra que essas famílias, e tantas outras, estão melhorando de qualidade de vida, a partir de novas relações com o consumidor. Essa dinâmica tem criado novas possibilidades para que as famílias agricultoras e suas organizações desenvolvam uma Economia Justa e Solidária, com ênfase na participação direta das Mulheres e Jovens do mundo rural. 

O foco do trabalho se baseia na biodiversidade, e a metodologia pressupõe como princípio impulsor o planejamento coletivo da produção e comercialização com todos os membros da família. Isso tem ajudado a colocar em questão as estruturas de poder no interior das famílias, mas não parecem ainda ser suficientes para desconstruir concepções fortemente incrustadas sobre o lugar de homens e mulheres e o valor diferenciado do trabalho. Nas propriedades onde existe o processo de planejamento efetivo da produção temos visto que há também processos de divisão do trabalho, da renda e inclusive do lazer diferenciados. Neste sentido, feminismo e agroecologia tem uma possibilidade muito grande de encontro, e nas experiências práticas, o planejamento da produção pode ser um bom instrumento para isso.

Desta forma acreditamos que uma nova pesquisa em 2006, que leve em consideração a realidade dos médios e pequenos municípios do estado de Pernambuco possa nos mostrar novas dinâmicas e processo de Sustentabilidade Econômica e Financeira  das famílias agricultoras. Sendo essa estratégia desenvolvida pelas organizações dessas famílias, podendo assim propiciar o protagonismo dessas pessoas que constroem novas perspectivas de qualidade de vida, tanto no meio rural como para as populações urbanas.

Essas experiências inovadoras de produção agroecológica vêm possibilitando às famílias agricultoras a melhoria da qualidade de vida e uma gestão mais autônoma e mais próspera de suas economias. Isso significa a reconstrução do prazer de ser gente mais alegre e satisfeita, com auto-estima elevada e plantando mais vida para um mundo melhor.


Algumas referências bibliográficas.

• SILVA, Carmen. Nosso Trabalho tem Valor: Mulheres e Agricultura Familiar/Carmen Silva; Maria Betania Ávila;Verônica Ferreira – Recife: SOS CORPO-Instituto Feminista para a Democracia/Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste, ago.2005.

• ALTIERI, Miguel. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável/Miguel Altieri – Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1998.

• SANTOS, Aldo. AGRICULTURA FAMILIAR ECOLÓGICA: Construção e Implantação de Sistemas Agrícolas Sustentáveis - Estudo de Caso em Bom Jardim–PE/ José Aldo dos Santos – Recife – 2000- Dissertação de Mestrado.

• WANDERLEY, Maria de Nazareth Baudel. A agricultura familiar no Brasil um espaço em construção. 1995. 33 p. Mimeo.

• NEVES, Delma Pessanha. Agricultura Familiar e Mercado de Trabalho. Revista Estudos Sociedade e Agricultura, n. 8, abril 1997: 7-24. Rio de   Janeiro/ UFRRJ.

• HABERMEIER, Kurt & SILVA, Avanildo Duque da. Agrofloresta: um novo jeito de fazer agricultura. Recife: Centro Sabiá, 1998. 41p.

• CAMARANO, Ana Amélia e ABRAMOVAY, Ricardo. Êxodo rural, envelhecimento e masculinização no Brasil: panorama dos últimos cinqüenta anos. ANPOCS. 1997. (mimeo).

• CHAYANOV, Alexandr V. La Organización de la unidad económica  campesina.Nueva  Visión, Buenos Aires, 1974, 339 p. 


*José Aldo dos Santos é Engenheiro agrônomo, mestre em Administração rural pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Coordenador de articulação política do Centro Sabiá, membro da coordenação estadual da ASA-PE, faz parte da coordenação da executiva da ASA-Brasil e da coordenação nacional da Articulação Nacional de Agroecologia - ANA. Representatne da ASA-Brasil no Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável - CONDRAF.


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