Notícias

Jornal do Commercio: Agroecologia traz a alma para o prato

Whatsapp

04/05/2015

Feiras

Espaço Agroecológico das Graças foi um dos espaços de comércio que teve destaque na reportagem

Por Mariana Mesquita, do JC Mais

Reportagem especial publicada pelo Jornal do Commercio, no caderno JC Mais. Data: 3 de maio de 2015. Veja a versão online:  http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/suplementos/jc-mais/noticia/2015/05/03/agroecologia-traz-a-alma-para-o-prato-179287.php



Agroecologia traz a alma para o prato

Oferta tem crescido no Recife, levando pessoas a acordar cedinho e buscar opções de alimentos mais saudáveis

São quase 70 feiras agroecológicas em Pernambuco, mais de 20 delas no Recife, sustentando uma rede de cerca de 1.400 famílias de agricultores e alimentando aproximadamente 14 mil pessoas. A estimativa é do agrônomo e produtor Flávio Duarte, sócio do Centro Sabiá. Há 18 anos, ele foi um dos fundadores da primeira feira do gênero a funcionar no Recife, o Espaço Agroecológico das Graças. De lá pra cá, as iniciativas se multiplicaram e o hábito de acordar cedinho para comprar os produtos se incorporou à vida de muitas pessoas nos bairros ou em feiras menores, “privadas”, dentro de escolas como a Waldorf e a Fazer Crescer ou instituições como a Secretaria Estadual de Educação e o Tribunal Regional do Trabalho.

Tem público para todo gosto. Dos senhores aposentados que resgatam a tradição de “ir à feira”, perdida ao longo do tempo, aos jovens que “espicham a balada” e compram na sequência das festas. A feira do Carmo, em Olinda, atrai gente como o fotógrafo Fernando Figueiroa, de 28 anos: a partir das 3h30 da manhã, quando o espaço começa a ser montado, é hora de forrar a barriga com pastéis e sucos fresquinhos. Famílias inteiras, com crianças a tiracolo, madrugam nas feiras. A barraquinha de Lenir, nas Graças, recebe fregueses que compram pães e salgados em quantidade, por recomendação médica, para lanchar ao longo semana.

“A alimentação é um campo de exercício da liberdade e de expressão política. Para mim, trata-se de uma cadeia revolucionária de generosidade onde a gente se inclui, como consumidor final. É maravilhoso comprar das mãos de quem plantou, que cuidou de sua comida”, diz Rafaela Valença, 29, que frequenta estas feiras há dez anos e, há três, criou a empresa Avena, onde produz alimentos veganos utilizando vários insumos adquiridos nestes espaços.

Quem frequenta as feiras agroecológicas percebe que a relação entre agricultores e consumidores envolve afeto e cidadania, num patamar impossível de reproduzir em outros ambientes. Nos grandes supermercados há opções orgânicas, a maioria com preço elevado em relação às opções de alimentos expostas a agrotóxicos. Mas a proposta agroecológica vai além do alimento em si. Além do respeito à natureza, o comércio é embasado na confiança, na qualidade e, também, nos preços. O fato é que os alimentos comercializados por meio desta rede geralmente saem mais em conta que os “convencionais” vendidos nos supermercados: foi o que comprovou uma pesquisa comparativa realizada no ano passado, levantando os preços de 15 produtos, como mamão, jerimum, laranja, inhame e ricota.

Para facilitar a compra, existem opções como o site da Comadre Fulozinha, que tem seis mil clientes cadastrados, dezenas de opções de produtos locais e de todo o Brasil, que vão de folhagens produzidas por agricultores pernambucanos, pães, oleaginosas e outros produtos especiais, e até frutas como maçã e caqui orgânicos. A empresa entrega em toda a região metropolitana. Isso, porém, elimina um pouco da graça que existe no contato direto. Dentro da rede agroecológica há uma relação de solidariedade entre os produtores, que se ajudam mutuamente e tomam decisões de forma coletiva, e também com os consumidores. No início da feira das Graças houve uma situação que vai de encontro ao lugar-comum das relações de mercado: pessoas adquiriram “vales”, emprestando dinheiro para os agricultores na entressafra e viabilizando a produção futura. Ir à feira, nesse contexto, alimenta a alma por tabela. Que o diga o agricultor Rafael Justino, que traz a sanfona junto com os produtos de sua banca e encerra os encontros, todo sábado, tocando forró pé-de-serra junto com os clientes.

FAST-FOOD SAUDÁVEL

Uma outra tendência que vem crescendo no Recife é a oferta de comida natural, muitas vezes vegana (sem ingredientes de origem animal). Os produtos são consumidos por quem é defensor dos direitos dos animais, por quem considera que fazem bem à saúde e até por quem, simplesmente, tem fome e aprecia o sabor. Alternativas à carne, ao leite e ao ovo aparentemente estranhas, como “carne” de jaca verde, de caju e de mangará de bananeira, “leites” vegetais de aveia e amêndoa e “clara” de linhaça e agar-agar, transformam-se em comidinhas que agradam ao paladar geral.

A Avena, da olindense Rafaela Viana, vende trufas, tortas, docinhos e outras comidas artesanais “de verdade”, sem aditivos químicos, e dá aulas de culinária. Outro bom exemplo é a empresa Juju Vegan, formada por sete voluntários. À frente de um abrigo para animais com necessidades especiais, a venda de alimentos começou para arrecadar dinheiro para o tratamento dos bichos (incluindo Juju, um gatinho paraplégico) e, também, divulgar o veganismo.

A designer Chyrllene Albuquerque, 26, está à frente do projeto e explica que a ideia é fazer com que os produtos se assemelhem aos “normais”, tanto na aparência como nos preços, que são propositadamente acessíveis. Toda terça e quinta, uma banquinha montada próximo ao Centro de Artes da UFPE vende delícias como coxinha de jaca e cupcake de banana com cacau e docinhos, os quais se esgotam em poucas horas. A clientela crescente, inclusive para festas infantis, já levou à construção de um espaço maior e à terceirização dos produtos em lanchonetes em Olinda e no Recife.

Um famoso pastel de jaca

Salgado faz sucesso na feira há quase vinte anos

Todo sábado, há quase duas décadas, dona Lenir Pereira, de 54 anos, leva seus quitutes à feira agroecológica das Graças. Dona do Sítio São João, junto com o marido Jones, ela aderiu à proposta da agroecologia e transformou sua propriedade, de apenas um hectare, em referência internacional de produção familiar. Cerca de cinco mil agricultores e estudantes de agronomia realizaram visitas ao espaço, desde que foi criado.

O Sítio São João também foi palco de uma história de amor e empreendedorismo. Quando Jones aderiu à proposta da agroecologia, passando a respeitar a terra e produzir sem uso de agrotóxicos, ele resolveu também se tornar vegetariano. Foi aí que Lenir buscou alternativas para alimentar toda a família, através de pesquisa e de experimentação. Na sequência, os alimentos processados foram naturalmente sendo levados à feira.

Hoje, ela vende torta de macaxeira com taioba, bolacha acebolada, pastel de soja e de ricota, pães variados e sucos de açaí, maracujá com ubaia e capim santo com limão. O carro-chefe, porém, é o famoso pastel de forno com recheio de jaca, cujo tempero “imita” frango desfiado. Segundo Lenir, mais de 200 unidades do salgado são produzidas pela família toda semana. O “lote” é dividido com o filho, Juvenal, que comanda uma banquinha na feira em Boa Viagem e também comercializa outros produtos dos Pereira, como mel, própolis e geleias.

Lenir partilhou a receita do cobiçado pastel com os leitores do JC, e ela pode ser acessada AQUI. Trabalhosa, a “carne” é feita a partir do broto da jaca. Depois de tratada, cortada e cozinhada na pressão, ela é desfiada e temperada, assemelhando-se ao palmito e ganhando gosto de “galinha” ou de “peixe”.

Se você quiser experimentar mas não souber onde encontrar uma jaca adequada, ou mesmo se preferir comprar o material já processado, pode adquirir os potinhos de meio quilo vendidos por Cristina Petroni, agricultora do Sítio Sete Estrelas. Cristina, 47, integra esse grupo de agricultores que têm orgulho de sobreviver exclusivamente do trabalho na terra, e vende seus produtos nas feiras do Museu do Homem do Nordeste e de Dois Irmãos.


Veja onde comprar produtos agroecológicos no Recife

Feiras acontecem em vários pontos da cidade

Principais feiras agroecológicas

Sábado


Espaço Agroecológico das Graças (1997)

Rua Souza Andrade, atrás do Colégio São Luiz.

Das 4h às 9h.

Espaço Agroecológico de Boa Viagem (2001)

Praça Jules Rimet, por trás do Primeiro Jardim.

Das 5h às 10h.

Feira Agroecológica do Sítio da Trindade (2002)

Estrada do Arraial, Casa Amarela.

Das 5h às 11h.

Feira de Produtos Orgânicos de Casa Forte (2004)

Praça da Vitória Régia.

Das 5h às 10h.

Feira de Produtos Orgânicos do Carmo (2002)

Praça do Carmo, Olinda.

Das 4h às 10h.

Sexta

Feira Agroecológica Chico Mendes / Dois Irmãos (2011)

Praça Farias Neves, em frente ao Lafepe/URPRE.

Das 6h às 12h.

Feira Agroecológica do Recife Antigo (2008)

Praça Tiradentes, em frente ao Tribunal Regional do Trabalho.

Das 11h às 17h

Feira Orgânica do Espinheiro (2005)

Rua da Angustura com Conselheiro Portela, ao lado da Igreja Matriz.

Das 6h às 12h

Feira Agroecológica da Juventude do Cordeiro (2006)

Avenida Caxangá, no Parque de Exposições.

Das 5h às 11h

Feira Agroecológica Chico Mendes / Setúbal (2005)

Avenida Visconde de Jequitinhonha, logo após a Rua Barão de Souza Leão.

Das 5h às 10h

Feira Agroecológica do Museu do Homem do Nordeste (2014)

Avenida 17 de Agosto, 2187 - Casa Forte

Das 7h às 11h

Feira de Produtos Orgânicos de Bairro Novo (2002)

Avenida Beira Mar, próximo ao antigo quartel.

Das 5h às 8h.

Quarta

Feira de Economia Solidária e Agroecológica UFPE/CCSA (2006)

Campus da Universidade Federal de Pernambuco.

Das 5h às 13h.

Feira Agroecológica da Aurora (2008)

Rua da Aurora, em frente ao Ed. Alfredo Bandeira

Das 14h às 20h

Feira Virtual

Comadre Fulozinha

www.comadrefulozinha.com.br

(81) 30330191

Sítio Sete Estrelas

www.sitioseteestrelas.weebly.com

(81)73222954<EM>

Comida do bem e da boa

A Comilança

(81) 85713579

Avena

(81)87718337 - 99548099

Juju Vegan

(81)87744205 - 97150692

Um lugar

(81) 87148683 - 98919382