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A Caatinga, um patrimônio brasileiro ameaçado

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05/06/2020

Foto: Ana Mendes / Acervo do Centro Sabiá

A Caatinga, um patrimônio brasileiro ameaçado

Por Paulo Pedro, coordenador geral do CAATINGA – Centro de Assessoria e Apoio a Trabalhadores/as e Instituições Não Governamentais Alternativas

A Caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro, onde está a maior parte das áreas suscetíveis à desertificação no País e onde predomina o clima Semiárido, com rica e rara biodiversidade, pois grande parte de seu patrimônio biológico não pode ser encontrado em nenhum outro lugar do planeta. Cerca de 1/3 de suas plantas e 15% de seus animais são espécies exclusivas deste bioma. Reconhecida como uma das 37 grandes regiões naturais do planeta, ao lado da Amazônia e do Pantanal. Porém é o terceiro bioma brasileiro mais degradado, ficando atrás apenas da Mata Atlântica e do Cerrado neste aspecto. Quase metade de sua extensão já está profundamente degradada pela ação humana. 

O processo de desertificação em nível grave já atinge 13% (em torno de 132.355 km²) do Semiárido brasileiro e ameaça a conservação da caatinga e a vida de várias comunidades e territórios, segundo estudo feito pelo LAPIS (Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites) da UFAL (Universidade Federal de Alagoas), no período de 2013 a 2017. 

Considerando os últimos levantamentos, o Semiárido brasileiro ocupa uma área de 1,03 km² (12% do território brasileiro), em 1.262 municípios nos nove estados da Região Nordeste (Pernambuco, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe) e também no Estado de Minas Gerais, na Região Sudeste, onde vivem 27.000.000 habitantes (em torno de 13% da população brasileira); 40% da população da região vive em áreas rurais, totalizando 1,7 milhão e mais de 8,5 milhões de pessoas; as chuvas variam entre 200 a 800 milímetros por ano; e a evapotranspiração média de 3.000 milímetros por ano. Já a vegetação nativa é a caatinga – nome indígena que significa mata cinza. 

Com biodiversidade bastante resistente e resiliente, dotada de uma delicadeza e características próprias, a caatinga se transforma de acordo com o ciclo anual das chuvas. Em épocas de estiagem, a vegetação perde as folhas como estratégia de reduzir a perda de água. Assim, é possível perceber a beleza da caatinga em épocas de chuvas, com suas folhas verdes e árvores floridas, mas também observar sua beleza e resistência nos períodos de estiagem e secas. 

Além do baixo nível e irregularidade das chuvas, as altas temperaturas, com médias anuais de 27 a 29 graus e a predominância dos solos rasos e pedregosos, que armazenam pouca água, estão entre suas principais características. 

O uso insustentável de seus solos e outros bens naturais contribui para a degradação da Caatinga ao longo dos anos. Como exemplo, na região do Araripe em Pernambuco, estima-se que nos últimos 30 anos foram desmatados cerca de 857.000 (oitocentos e cinquenta e sete mil) hectares de florestas nativa, o que faz prever em 42 anos o tempo de vida restante para a cobertura vegetal ainda existente.

Assim como o cerrado, a caatinga não é reconhecida como patrimônio nacional. Tramita no Congresso Nacional um Projeto de Lei com o propósito de alterar essa conjuntura. 

Organizações como o Centro Sabiá e o CAATINGA, membros de redes como a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e de outras redes, atuam na defesa do bioma, na preservação e conservação de seus bens naturais e de seus povos. Além de propor e executar ações de convivência com o clima Semiárido, que significam estratégias adequadas de manejo com o ambiente, consequentemente valorizando o bioma caatinga e contribuindo para o fortalecimento da agricultura familiar diversa, desenvolvida por inúmeros povos tradicionais que vivem no bioma.