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“A minha fome não é minha só, ela é de todas nós...”

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01/08/2018

Centro Sabiá celebra 25 anos em diálogo com a cidade e denuncia aumento da fome no Brasil

Por Catarina de Angola

Paulo Petersen foi um dos palestrantes do primeiro painel que tratou da soberania alimentar e democracia: a contribuição histórica da agroecologia | Foto: PH Reinaux/Centro Sabiá

 

É mês de julho no Recife e a chuva é sempre uma possibilidade. Mas o dia 25 de julho foi um dia de sol e de chuva. Um dia de céu azul e com as águas que apareceram para banhar, e de forma rápida dar uma trégua no calor. Esse dia foi mesmo de festa. Mas também dia de ouvir as sábias palavras de Lia de Itamaracá e denunciar: “A minha fome não é minha só, ela é de todos nós...”, cantou a artista pernambucana, fazendo todos e todas juntarem as mãos na celebração da vida do Sabiá, mas também na denúncia do crescimento da fome no país. 

Foi com o “Ocupe Campo & Cidade: Não quero mais a fome no meu País”, que o Centro Sabiá celebrou no Pátio de São Pedro, área central da capital pernambucana, seus 25 anos de existência, completos no dia 09. Juntou toda a sua equipe, agricultores e agricultoras da Zona da Mata, do Agreste e do Sertão do estado, sócios e sócias, parceiros, convidados, artistas e representantes de articulações, redes e organizações para partilhar com a cidade do Recife o que significam 25 anos de atuação em prol da agricultura familiar e da promoção da agroecologia. 

Partilhou também a preocupação com a atual conjuntura política, de desmonte das políticas sociais e dos direitos da classe trabalhadora, que tem tido efeito direto na vida da população. Já são quase 12 milhões de brasileiros e brasileiras que estão em situação de extrema pobreza. Números que se relacionam diretamente com o aumento da fome no país. Esse foi também um momento de denúncia dessa situação.

“Na criação do Centro Sabiá, em 1993, já manifestávamos essa preocupação, naquele período de recessão da economia de forte situação de fome e miséria. Já se discutia em nossa equipe uma ação de promoção da agroecologia que desse conta de atender essa necessidade de superar a fome da população do campo. Hoje, percebemos que a situação de fome volta fortemente nas periferias e centros urbanos. Então, estar no centro do Recife dialogando com a população sobre essa situação é um desafio, mas nos ousamos a fazer isso em praça pública”, explicou Alexandre Pires, coordenador geral do Centro Sabiá.

 

Ocupe Campo & Cidade

Recifenses puderam comprar produtos agreocológicos no Pátio de São Pedro | Foto: Rafael Oliveira/Centro Sabiá

 

Cerca de 50 agricultores e agricultoras chegaram cedo ao Recife, montaram as barracas e deram início a uma feira da agricultura familiar de base agroecológica que tomou conta de todo o Pátio de São Pedro. De produtos in natura, como frutas e verduras, a produtos beneficiados, onde era possível, quem por ali passava,  tomar café da manhã ou lanchar. Assim amanheceu essa região central da cidade do Recife. A bicicleta de som já anunciava desde cedo, que aquela feira ia durar o dia todo, e era só o começo de um dia inteiro de atividades. 

Integrava também a feira a ação “Você Muda com Mudas”, realizada pelo Centro Sabiá em parceria com os Trapeiros de Emaús, que realizou a troca de descartes eletrônicos por mudas de plantas. A ação distribuiu mais de 2.000 mudas e recolheu mais de uma tonelada de produto eletrônico em desuso ou danificado. Foram exatamente 1.103,250 quilos de produtos eletrônicos que foram coletados e que serão reciclados pelos Trapeiros. Iniciativa que só foi possível com a doação das mudas pelos agricultores e agricultoras. 

População compareceu para trocar seus eletrônicos em desuso por mudas | Foto: Rafael Oliveira/Centro Sabiá 

 

Elaine Luna, integrante do Quilombo Casa Coletivo, do Amaro Branco, em Olinda, foi uma das pessoas que saiu de casa para aproveitar a troca. Ela, que ficou sabendo da iniciativa por intermédio de amigos, aprovou a iniciativa. “Trouxe vários equipamentos eletrônicos porque faço parte de um coletivo e a gente veio acumulando. E aqui foi uma oportunidade de troca também. A gente faz muito isso no coletivo, trocar doações por mudas em nossas atividades e aqui fizemos o processo inverso”, contou. 

O cozinheiro Yuri Machado, sócio do restaurante Cajá, do Recife, esteve no Pátio de São Pedro prestigiando a atividade, em reforço a ocupação dos espaços públicos e em defesa da agroecologia. “A gente está na luta pela ocupação dos espaços púbicos. E que aconteçam ações como esta mensalmente, no Pátio e em outros lugares que precisam. A defesa da agroecologia é por uma questão de saúde e por questões políticas. É o futuro da humanidade em si ter essa preocupação com o próximo, com as famílias, com o bem estar das pessoas. É isso que a gente quer para a gente e para os nossos irmãos”, disse. 

O público também pôde conferir a exposição fotográfica “A Deliciosa Teimosia em Ser Feliz”, de João Roberto Ripper, promovida pelo Centro Sabiá. A exposição retrata em imagens a dinâmica da agricultura familiar em Pernambuco. E ainda durante todo o dia, os restaurantes do Pátio de São Pedro serviram comidas preparadas com alimentos agroecológicos, compradas diretamente de agricultores/as assessorados/as pela organização.

 

Não quero mais a fome no meu País 

O diálogo durante todo o dia também foi feito em forma de conversa com a população. Embaixo de uma grande tenda de circo, representantes de redes e organizações, agricultoras e pesquisadores, partilharam saberes e trocaram experiências. O painel "Soberania Alimentar e Democracia: a contribuição histórica da Agroecologia", com a contribuição de Joelma Pereira, agricultora agroecológica e presidenta do Centro Sabiá, Maria Emília Pacheco, assessora da FASE e integrante da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Cristina Nascimento, do CETRA e da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Paulo Petersen, da AS-PTA e da ANA, com mediação do professor da UFRPE e sócio fundador do Centro Sabiá, Marcos Figueiredo. 

Na parte da tarde, o debate foi sobre Produção de Alimentos e a História da Fome no Brasil. Com a participação de Sandra Rejane, agricultora de Santa Cruz da Baixa Verde, Sertão de Pernambuco, da economista Tânia Bacelar, de Naidson Baptista, da ASA e Avanildo Duque, da Actionaid. Com mediação de Joana Santos, sócia do Centro Sabiá e da Escola de Formação Quilombo dos Palmares (Equip).

A partir de sua experiência, Joelma Pereira falou dos desafios que a agricultura familiar tem vivido. “Somos muitas mulheres e homens em busca dessa soberania alimentar e pela qualidade de vida que tanto ouvimos falar. Os últimos anos não têm sido tão fáceis, principalmente para as famílias agricultoras que estão na zona rural, nas suas áreas produzindo e buscando permanecer no campo com qualidade, autonomia e liberdade. Não são tempos muito fáceis, mas já provamos que sabemos o caminho, a gente vem dessa caminhada e já vem com muitos passos dados e firmados. Só precisamos garantir que eles tenham continuidade”, disse.  

Para Cristina Nascimento, o reforço a agroecologia ultrapassa a relação do consumo saudável. É também a demonstração de um posicionamento político. “O fortalecimento também se dá pelo processo eleitoral, não dá para a gente estar na feira para comprar produto agroecológico e está reforçando na eleição o político do agronegócio. Porque quando estão lá dão fim aos recursos para as políticas de fortalecimento da agricultura familiar, o fim das políticas para o Semiárido. É toda uma perspectiva de desfazer o que com muita luta conseguimos construir no País. Esta é então uma chamada, para nós como sujeitos políticos, que não podemos nos omitir. Porque a fome é a expressão hoje, da não democracia, afirmou.

 

Celebrar a fartura da vida

Vera Baroni e Marcelo Barros conduziram a celebração | Foto: PH Reinaux/Centro Sabiá

 

A reflexão para a construção de um mundo melhor também passou pela celebração, com muita música, mas também do resgate da espiritualidade. Uma celebração inter-religiosa foi realizada no fim da tarde em celebração aos 25 anos do Centro Sabiá. Uma cerimônia cheia de mística, religiosidade e do entrelaçamento da política com a vida de todas as pessoas. Com a participação de Marcelo Barros, monge beneditino, de Vera Barone, da Rede de Mulheres de Terreiro de Pernambuco, e Pastor Sérgio, da Igreja Anglicana da Santíssima Trindade. Celebração sob animação do grupo Vozes da Resistência, das comunidades do Morro da Conceição e adjacências, que finalizou com uma grande ciranda. 

Que foi prévia da grande ciranda de Lia de Itamaracá, puxada quando já passavam das 22h, em um Pátio de São Pedro ainda animado e vivo esperando a rainha subir ao palco, neste que também foi celebrado o Dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha. Além de Lia, também animaram o dia os arte e educadores/as da Companhia Maravilhas, a banda Forropiando, Maracatu Nação Mulambo, Negro Grillo e as Severinas. 

Equipe do Centro Sabiá e participantes da celebração em momento de partilha | Foto: PH Reinaux/Centro Sabiá