Dia de proteção às florestas: um chamado para a Agroecologia

Foto: Ana Lira / Acervo do Centro Sabiá

Dia de proteção às florestas: um chamado para a Agroecologia

No último dia 17 de julho, comemoramos o Dia de Proteção às Florestas, data importante para debater os temas da ecologia, da agroecologia, do combate ao envenenamento e também contra o desmatamento, que hoje estão entre as principais ameaças às nossas florestas pelo Nordeste e pelo Brasil. Florestas abrigam vidas, plantas e garantem o ciclo da natureza que se renova e se restaura. Sem elas, pode inclusive haver um grande desequilíbrio ambiental e até social, como o que vivemos hoje. E é para falar sobre tudo isso entrevistamos Vilmar Lermen, associado do Centro Sabiá, agricultor familiar e agroflorestal e também integrante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade de Exu, no Sertão de Pernambuco. Confira como foi essa conversa!

Centro Sabiá: Vilmar, fale um pouco sobre quem você é e o seu trabalho?

Vilmar Lermen: Meu nome é Vilmar Lermen, sou agricultor agroflorestal, moro na cidade de Exu, no Araripe de Pernambuco, Região do Centrão, Terra do Luiz Gonzaga. Sou associado do Centro Sabiá e participo de diversos movimentos, organizações sociais aqui no território do Araripe pernambucano e também no Semiárido brasileiro, especial na região do Ceará, porque é próximo aqui, divisa conosco, e sou agricultor familiar agroflorestal. Sou casado, tenho quatro filhos e nascido naturalmente no Paraná moro já há 22 anos em Pernambuco. Além disso, fazemos o trabalho aqui com a comunidade onde a gente mora, na Serra dos Paus Dóia, com a Agrodóia, que a nossa associação aqui da comunidade, e participamos do sindicato, de outras organizações, movimentos sociais, ONGs aqui nessa região, produzimos de forma agroflorestal, beneficiamos os produtos da produção da agrofloresta, do extrativismo, mexemos com abelhas nativas e nesse contexto, então, também contribuímos com a discussão, planejamento, cursos, intercâmbios, vivências nos campos da agrofloresta para a convivência com o Semiárido, já que a gente mora na Chapada do Araripe. Então, é um pouco isso, nesse contexto de nossa apresentação. Nossa propriedade tem 10,3 hectares, dos quais tem cerca de 8 hectares, um pouquinho mais que isso de remanescente florestal, que está em regeneração já há muitos anos. 2.2, 2.3 hectares nós temos então cultivado em diferentes estágios de plantação dos sistemas agroflorestais, criação das abelhas, uma área para galinha, onde se encontra também a agroindústria, a associação no terreno que nós cedemos para a comunidade. É ali que nós mexemos com as hortaliças e fazemos a sucessão ecológica e a estratificação florestal dentro do sistema agroecológico que nós produzimos aqui.

Centro Sabiá: Qual a importância de um dia como esse, o Dia de Proteção às Florestas?

Vilmar Lermen: Se estudarmos a história ecológica e da humanidade, a madeira, a lenha, a floresta, e outros benefícios ecológicos que a floresta proporciona, o ser humano sempre dependeu, sempre viveu da floresta. O ser humano saiu mais da floresta e foi para a savana. Nós savanizamos a agricultura e criamos meio que um pânico, um medo… e a floresta foi sempre tida como algo sombrio para algumas nações e aos povos isso foi crescendo na visão de muitos humanos. Mas nós somos altamente dependente de florestas, então é importante que nós possamos plantá-la, porque ela regule temperatura, forneça energia, forneça madeira para a construção, forneça as frutas, forneça oxigênio e tantos outros elementos que são importantes para nós. 

Centro Sabiá: Como hoje podemos observar a proteção das florestas? Nossas florestas estão seguras?

Vilmar Lermen: Nós vemos que o capitalismo, o “capetalismo” como muita gente fala, no Brasil e no mundo, avança sobre os recursos naturais. E sobre as florestas não é diferente, do ponto de vista do agronegócio, das commodities, da mineração e dos interesses da indústria química, da indústria de remédios bioativos, que fazem com que a floresta ela venha sendo degradada, venha sendo utilizada de uma forma errada. Não vem sendo manejada de forma correta. A sucessão ecológica faz com que haja uma evolução a partir da fixação de toda a energia solar transformada em carbono e assim por diante, e todos os serviços ecológicos que as florestas com os seus milhões de seres, das florestas úmidas, tropicais, as florestas temperadas até onde existam florestas, seja nos climas mais quentes aos mais frios, os seres que ali se formam são muito importantes para a sobrevivência das espécies do mundo inteiro, não só a humana. Mas especialmente somos dependentes. Se falarmos em relação à proteção, o atual Ministério do Meio Ambiente tem adorado o agronegócio, isso tem sido liberado de uma forma muito direta, sem estudo de arrima, sem proteção, sem manejo adequado de novas áreas agroflorestais, novas áreas florestais melhor dizendo, para que a mineração, o agronegócio possa estar avançando para a fronteira agrícola. Então, é lamentável que estejamos nessa situação. Temos milhões de hectares de terras degradadas que podiam ser recuperadas para a produção agropecuária, agroflorestal ecológica em especial, e não vêm sendo utilizados. Então, nossas florestas não estão seguras nesse governo, talvez em outros governos estivessem também com um certo risco pela questão desenvolvimentistas que nós temos atualmente no Brasil. 

Centro Sabiá: Vilmar, em meio à pandemia do Covid-19, vemos que o governo se movimenta para agir em prol do agronegócio e desmatamento, enquanto o país passava por uma grande pandemia. Como você observa essas ações do governo federal?

Vilmar Lermen: É difícil falarmos sobre os interesses… os interesses são muitos, seja na pandemia ou antes dela, sempre se arruma um formato para se avançar sobre recursos naturais. Muitas vezes, inclusive nós, agricultores familiares, agricultores de modo geral, com dificuldades econômicas, tendemos a avançar sobre aquilo que produz uma renda, alimento e resolva problemas de crise mais imediatos. Pensar a longo prazo, quando você está com fome, quando você não tem economia, quando você está em conflito é bem complexo. Mas no Brasil, em relação à pandemia, com certeza o governo vem se aproveitando da situação da pandemia para aprovar projetos, para empurrar uma série de interesses que as elites brasileiras tinham ao longo da sua história, de acesso aos poderes, de acesso à economia, e que nos governos mais populares, nos últimos anos, tinham perdido certos privilégios, certas ações diretas e o ego tinha sido ferido. Então, agora, temos essa situação, desde o último governo, que foi o golpista, 2016 para cá, e no atual, que foi eleito dentro daquela conjuntura. Enquanto sociedade civil, eu penso que, às vezes, estamos um pouco amordaçados, estamos um pouco acuados para reagirmos e temos, então, a necessidade de frear essas ações atuais como organização, com movimentos, com ações massivas de rua, de conscientização da população para que possamos impedir que o governo venda, transfira, doe todo esse patrimônio, que são as florestas brasileiras para a iniciativa privada, aos grupos estrangeiros, para que eles possam servir à coletividade, para preservar também a floresta de dentro do Brasil.

Centro Sabiá: Uma das fortes armas no combate armas no combate ao desmatamento, o envenenamento das florestas são os SAFS, Sistemas Agroflorestais. Você pode explicar para a gente o que são e como podem ajudar nossa natureza os Sistemas Agroflorestais?

Vilmar Lermen: Para que a gente possa fazer um bom desenvolvimento, é preciso que as florestas, o patrimônio seja de interesse público da coletividade no país. Então, para a gente fazer o combate ao desmatamento, o envenenamento de florestas, o uso indiscriminado dessa matéria-prima, desse patrimônio nacional é que possamos preservar e manejar de forma sustentável as áreas que existem, mas também recuperar todas aquelas áreas que estão degradadas pelo mau uso dos venenos, dos nitratos, do maquinário, da exploração pecuária e de outras commodities que vão exaurindo o solo, vão envenenando a biodiversidade e fazendo com que tenhamos uma baixa produtividade por área que poderia atender toda a sociedade brasileira. Inclusive, empregando a mão-de-obra, mantendo os camponeses na terra, investindo na juventude, para que a ela possa estudar, mas que ela possa manejar a terra de forma correta. Para isso, os Sistemas Agroflorestais são uma técnica que vem sendo aprimorada e desenvolvida por muita gente ao longo dos últimos 40 anos e que muita gente se inspira no suíço Ernst Gotsch que fez um bom trabalho, inclusive no Centro Sabiá, na década de 1990, mas que até hoje inspira e contribui com inovações, com melhorias para que possa estar gerando renda, tendo produtividade e proteção ecológica ao mesmo tempo. A agrofloresta precisa atender a necessidade da família, ser ecologicamente correta, ambientalmente também, que gera alimentos, que gera renda, que possa melhorar a paisagem daquele local, que possa ser sustentável no tempo e no espaço. Então, é importante que possamos, a partir disso, fazer com que a agrofloresta possa ajudar então a conservação, a preservação do ambiente, da natureza e que possamos tirar a nossa sustentabilidade desse ecossistema, naquele formato que a agrofloresta vai estar ajudando a criar. 

 

Que bom ter você por aqui…

Nós, do Centro Sabiá, desde 1993 promovemos a agricultura familiar nos princípios da agroecologia. Nossa missão é "plantar mais vida para um mundo melhor, desenvolvendo a agricultura familiar agroecológica e a cidadania". Seu apoio através de uma doação permite a continuidade do programa Comida de Verdade Transforma e outras ações solidárias e inovadoras junto ao trabalho com crianças, jovens, mulheres e homens na agricultura familiar.

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