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Enchentes na Zona da Mata de Pernambuco: tragédia anunciada

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02/06/2017


Na área rural, a ajuda sempre chega atrasada / Foto: Acervo Centro Sabiá

Por Laudenice Oliveira (Centro Sabiá)

Em Pernambuco há 52 mil famílias desalojadas depois das fortes chuvas que atingiram o estado no último final de semana de maio. Só na região da Mata Sul de Pernambuco, 11 municípios ficaram em estado de calamidade pública devido às inundações causadas pelas enchentes. No total, são 14 municípios já decretados estado de calamidade pública: Amaraji, Água Preta, Barra de Guabiraba, Barreiros, Belém de Maria, Catende, Cortês, Gameleira, Jaqueira, Maraial, Palmares, Ribeirão, Rio Formoso e São Benedito do Sul.

Na Zona da Mata, o município de Ribeirão, entre domingo 28 e segunda 29/05, ficou isolado. Já Rio Formoso recebeu o maior volume de chuva, mais de 323mm, segundo a Agência Pernambucana de Águas e Clima (APAC). Um mar de lama e destruição foi o que ficou depois que as águas baixaram na parte urbana das cidades. Hospitais, escolas, residências e casas comerciais tiveram seus equipamentos e utensílios destruídos ou levados pelas águas. Muitas famílias não conseguiram salvar todos os seus pertences. 

“Quando tirei as duas geladeiras e as duas televisões, a água foi invadindo a casa e eu não pude mais tirar nada. Perdi tudo”, conta ao repórter Vinícius Sobreira, do jornal Brasil de Fato Pernambuco, a professora aposentada Maria da Conceição, do município de Palmares. Na área rural, ainda não se sabe exatamente como estão às famílias agricultoras, pois até o poder público chegar nas áreas demora.

“Como sempre, nesses momentos a zona rural fica esquecida. A assistência emergencial é pouca ou demora muito a chegar. De acordo com a defesa civil de Pernambuco muitas comunidades rurais ainda estão isoladas”, declara Ana Santos da Cruz, técnica do Centro Sabiá que atua em Rio Formoso. Dos 13 municípios da Zona da Mata onde o Centro Sabiá desenvolve ações, oito deles estão em situação de calamidade pública - Rio Formoso, Ribeirão, Água Preta, Palmares, Catende, Maraial e Barreiros. Das 50 comunidades onde a entidade atua, até terça-feira, dia 30/05, a equipe técnica só conseguiu chegar, com muita dificuldade, em oito delas. Isso porque não se consegue chegar às comunidades de carro e moto, pois em muitos lugares as águas ainda não baixaram o suficiente.

Muitas famílias agricultoras perderam toda a sua produção
por conta das enchentes / Foto: Acervo Centro Sabiá

Onde se conseguiu contato, os relatos são de destruição das plantações e do isolamento devido a dificuldade de sair das áreas rurais. “No decorrer da noite foram muitas águas. Quando amanheceu fomos socorrer os animais que estavam sufocados nas águas. Conseguimos salvar os animais. Mas quando chegamos em casa, as águas já estavam invadindo as casas, aí fomos tirar as coisas das casas, cadeiras, mesas. Quando fomos para as hortas, já estavam se acabando nas águas os milhos, as hortaliças. O feijão tava a coisa mais linda e acabou tudo. Graças a Deus que ficamos com vida. Agora estamos aqui presos, sem poder sair, pois não tem saída”, conta a agricultora Agroflorestal Gilvanir Freitas, do assentamento Engenho Conceição, município de Sirinhaém. 

A conversa do governo se repete. Solicitar recursos de todos os cantos para reconstrução das cidades, para socorrer desabrigados e desalojados. O governo federal já anunciou a liberação de 175 milhões. O Ministério das Cidades também informou que tem 25 milhões para destinar a 24 cidades. Ainda há a promessa de um cartão-reforma para as famílias que precisarem reformar suas casas com valores entre 2 mil e 9 mil reais. 

Em todo o estado uma corrente de solidariedade se forma para arrecadar donativos para as pessoas que perderam suas casas e seus utensílios. Água, materiais de limpeza e alimentos não perecíveis são os mais necessários neste momento. As paróquias da igreja católica estão arrecadando donativos. A sede regional do Sindicato dos Trabalhadores na Educação do Estado de Pernambuco (Sintepe), em Barreiros, é outro ponto de arrecadação de donativos, em especial alimentos e roupas. O endereço é: Rua Olímpio Teodoro, 87 – centro da cidade. 

No Recife, há diversos pontos. O Quartel do Derby é um deles. Outro é na organização não governamental Diaconia, que fica na Ilha do Leite. O endereço é: Rua Marques Amorim, 599 – Ilha do Leite – Fone: (81) 3221.0508 

Correndo atrás do prejuízo – a história apenas se repete na Zona da Mata Sul. Há sete anos, em 2010, os/as moradores/as desses municípios, vivenciaram a tragédia das enchentes. Barreiros, Palmares e Água Preta foram os municípios mais atingidos. Em todo o estado ficaram 26 mil pessoas desabrigadas. Na época, o então governador Eduardo Campos e sua equipe apontaram como saída para o problema histórico das enchentes na região, a construção de barragens de contenção. Em maio de 2011, eles anunciaram a construção de cinco delas, com previsão de estarem prontas em 2013. Estamos em 2017, apenas uma foi construída, a de Serro Azul, mas que não se encontra totalmente finalizada, encontra-se em teste. É importante lembrar que para construção dessa barragem, cerca de 1.200 famílias que viviam nos engenhos Verde, Firmeza, Aliança, Canário e assentamento Serra dos Quilombos foram desalojadas. As famílias foram removidas e muitas delas receberam uma indenização ínfima e foram parar nas periferias das cidades próximas.

O argumento do governo estadual em não ter construído as cinco barragens de contenção, é de que o governo federal, não liberou os recursos necessários. Entretanto há problemas desde defeito nos projetos até rompimento de contrato, por parte do governo de Pernambuco, com a construtora contratada, sem que se realizasse outra licitação.