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Família Lima construindo história e realizando sonhos no Sítio Caruá, Agreste de Pernambuco

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21/02/2020

Foto: Darliton Silva

Por Darliton Silva, comunicador popular do Centro Sabiá 

 

A família vive na zona rural de Vertentes, no Agreste de Pernambuco

Na região Agreste de Pernambuco, no município de Vertentes, na comunidade do sítio Caruá, vive a família de José Severino de Lima (41), mais conhecido como Seu Zé, e Cilene Luzinete da Silva Lima (37). A propriedade tem menos de 1 hectare de terra, onde também vivem os filhos do casal. Estefany (11) gosta da gestão, do processo de organização e das atividades produtivas e Junior (6) se identifica com os trabalhos de campo, mas ambos têm tarefas divididas que estimulam o envolvimento com as atividades na dinâmica de trabalho da família na propriedade.

Seu Zé nasceu e se criou em Vertentes. O local onde mora hoje com sua família foi comprado em 2008, para construir sua casa. Nessa parte do Agreste pernambucano predomina o cultivo de milho, feijão, jerimum e macaxeira. A família também cultiva outras culturas como coentro, alface, couve, rúcula, salsa, beterraba, cebolinha, espinafre, ervilha, alcachofra, jiló e abacaxi, além de criar galinhas.

Desde a chegada de seu Zé e Dona Cilene na propriedade a água que abastecia a casa era comprada e vinha de um poço artesiano no povoado vizinho que fica cerca de uns dois quilômetros de distância de sua casa. Essa fonte de água também abastecia muitas famílias da comunidade. “Depois da chegada das cisternas é muito raro alguém ir buscar uma vasilha d’água nesse poço. Se passar um ano sem chover tem água suficiente na minha cisterna para passar o ano”, diz seu Zé.

Foto: Darliton Silva

Chegada das cisternas traz mudanças na vida de Seu Zé e Dona Cilene

A primeira tecnologia para acumular água, a cisterna de 16 mil litros, a família recebeu no ano de 2012. Essa água é para o consumo da família e para cozinhar os alimentos. Em 2018 chegou na comunidade e no município o projeto Uma Terra e Duas Águas (P1+2). Uma ação da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), realizado no município pelo Centro Sabiá. Esse projeto trouxe a cisterna calçadão de 52 mil litros, beneficiou a família de Seu Zé e outras famílias da comunidade Caruá. Desde a chegada dessa cisterna a família não compra e não utiliza água do poço artesiano que fica muito longe da propriedade, porque agora tem água no quintal de casa para produção e suprir as necessidades, além de economizar o dinheiro que era gasto com a compra de água. “Morando na região semiárida, depois da chegada das cisternas a palavra seca não existe mais, além do acesso à água, tivemos assistência técnica em questão de melhoramento do solo, como plantar, como colher e como armazenar água e sementes”, diz Seu Zé.

A família garante que com a chegada da cisterna calçadão junto com assessoria técnica do Centro Sabiá as coisas só melhoraram. Dona Cilene e Seu Zé, por exemplo, investiram na horta, melhoraram os canteiros e construíram um barreiro para ter uma outra fonte de água. A produção de hortaliças é para consumo da família, mas o que excede é vendido na própria comunidade. Dona Cilene recorda “Zé sempre falava, pra quê tu plantar coentro, tá gastando água com isso? Com dois reais a gente arruma e compra o coentro. Hoje a família tem nesse subsistema uma das principais fontes de renda, a primeira colheita Seu Zé distribuiu 200 pés de alfaces na comunidade como estratégia de divulgação e de atestar a qualidade do alimento produzido por eles e seu slogan de venda foi de graça só dessa vez, da próxima tem que comprar, eu tenho pra vender!”.

As crianças aprendem desde cedo a lidar com a terra para produzir alimentos numa perspectiva agroecológica, sem uso de veneno e livre de transgenia. Isso é muito importante porque elas irão compreender a importância da sucessão rural e darão continuidade ao trabalho no campo, tendo autonomia, garantindo a produção de alimentos, gerando a renda e sustentabilidade para família. “Ter água no quintal de casa é tudo de bom, antes da cisterna a gente planejava fazer os canteiros, mas a água que a gente possuía era pouca, e com a chegada da segunda água o sonho que virou realidade. Hoje nós temos nossa horta e já não vejo mais minhas flores morrerem por falta d’agua”, diz Dona Cilene.

Foto: Darliton Silva

Cursos e intercâmbios fortalecem iniciativas da família

Desde início do projeto, até os dias atuais, a família de Seu Zé e de Dona Cilene participa de encontros e intercâmbios. A família também recebe assessoria do Centro Sabiá.  Essa parceria contribui para a família experimentar alternativas de convivência com Semiárido. As práticas de experimentação não param. A cada volta de um intercâmbio, a cada pesquisa feita, a expertise de Seu Zé aumenta e algo de novo surge no agroecossistema da família. 

Nos cursos, onde diversas temáticas são aprofundadas, o grupo familiar busca novos conhecimentos. As capacitações de Gerenciamento da Água para Produção de Alimentos (GAPA) e de Sistema Simplificado de Manejo da Água (SISMA) foram fundamentais para a família fazer a administração da água. “Tem que ter esse cuidado de guardar o máximo que você puder na época de chuva para não sofrer com a seca, para ter o que o que beber, para ter o que dar para os animais, para ter como produzir e não perecer”, explica Seu Zé. 

Para contornar a timidez de Dona Cilene, Seu Zé distribuiu pela área plaquinhas com a identificação da cultura plantada.  No teste de germinação das hortaliças como coentro, alface, pimentão e cenoura, a família conta agora com um berçário, que precisou ter uma armadilha para as formigas, uma bacia com água nos quatro pés do berçário. Na oportunidade que teve, Seu Zé também foi aprendendo a melhorar a alimentação da sua família, usando as técnicas aprendidas nas capacitações e os recursos que disponibiliza em sua propriedade. 

Foto: Darliton Silva

Com estímulo financeiro os sonhos vão se materializando

Com o recurso do fomento, para além do filtro biológico que foi construído, a família pretende investir na irrigação das hortaliças. Para isso, Seu Zé foi até a comunidade de Mateus Vieira, que fica em Taquaritinga do Norte, município vizinho, para conhecer de perto a irrigação com fita em hortaliças, uma estratégia de economia de água e tempo. Ainda nessa perspectiva de economia de água, é possível observar na área da família o mesmo berço ocupado por mais de uma variedade de planta.  Dona Cilene partilha: “as pessoas nos perguntam se vale a pena a gente tá fazendo isso na nossa área, e a gente responde que dá certo sim”. Na verdade, a agricultora reforça com as palavras o que é possível ver e sentir, na área próxima às abelhas, onde se tem a maior concentração de árvores. Essa área é considerada pela família como um oásis verde. A agrofloresta iniciada já refresca a família nas tardes quentes.

Já está na lista de planejamento da família se organizar para construir um biodigestor, pelo gás e principalmente pelo biofertilizante para usar nas plantas. Seu Zé já conhecia o fogão ecológico e no último intercâmbio realizado pelo Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) viu novamente a tecnologia. Ele ficou curioso pelas novidades em torno da técnica e já garantiu estar na lista de planejamento da família. Outro sonho em curso é a construção de uma casa de sementes para guardar o patrimônio genético junto com a participação da comunidade.

Ter menos custo com a manutenção de cerca é um desejo para ele. Para isso tem feito mudas de umburanas e gliricídia para serem inseridas na cerca no próximo período de chuva. E para aumentar à área refrescante, Seu Zé já tem plantado algumas mudas distribuídas no agroecossistema, como pés de limão, mamão e outras.

“A cisterna nem chegou e eu já tinha mudado. Os cursos trouxeram informação. O projeto investe e traz muito conhecimento. Pra quem se interessar, muda sim! Aprendi muito, forma de viver, forma de cultivar a terra. Se a gente planta errado, vai colher errado. Um ano de assessoria foi bom e pouco. Se pudesse durar mais tempo, seria ótimo. Nesse acompanhamento técnico, a gente se torna uma família. Hoje eu tenho meu Oasis verde devido ao meu interesse e ao trabalho que o Centro Sabiá faz. Toda vez que vierem aqui na minha propriedade precisa ter uma coisa diferente, se não tiver, tem alguma coisa errada”, relata Seu Zé.

Seu Zé e Dona Cilene são protagonistas de suas próprias histórias. Perceberam através de suas vivências várias estratégias importantes para o caminho da vida digna no campo. O acesso às tecnologias sociais vem contribuindo para viver bem, produzir alimentos saudáveis e transformar realidades no Semiárido.