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O drama de Maria de Lourdes após enchentes

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07/07/2017


Foto: Centro Sabiá/Laudenice Oliveira

Dona Maria de Lourdes, 57 anos, é uma das pessoas que ficaram desabrigadas após as chuvas em Rio Formoso,
município da Zona da Mata pernambucana que está em situação de calamidade pública 


Por Laudenice Oliveira (Centro Sabiá)

 

Ela tem 57 anos, passou por 24 gravidezes, de todos que nasceram, criaram-se 10. Nove já casaram, e ela cuida da filha de 14 anos que vive com ela. Ficou viúva duas vezes. De coração grande, dona Maria de Lourdes Pereira adotou um menino, que agora tem 3 anos. Ela diz que a mãe o deixou, o pai não cuidou e ela o acolheu junto a sua numerosa família, formada por 20 pessoas. Dona Maria de Lourdes é uma das desabrigadas pelas enchentes que atingiram a Mata Sul de Pernambuco. Ela vive na vila da Usina Cucaú, controlada pelo Grupo EMN, cujo presidente é Eduardo Monteiro Neto, proprietário da Folha de Pernambuco e irmão do senador Armando Monteiro (PTB). A usina fica no município de Rio Formoso, que até o início de julho alagou três vezes na parte da cidade.

A cheia que colocou o município em estado de calamidade pública foi a do final de maio. Treze famílias da Usina Cucaú ficaram desabrigadas. Foram acolhidas na escola municipal Maria José Monteiro. De acordo com a diretora adjunta, Lenice Evangelista, a escola recebeu 25 crianças e adolescentes, quatro bebês e duas gestantes, além de 27 adultos. Todos e todas à espera de um lugar para morar. “Estamos tentando fazer o que é possível, as merendeiras estão vindo para preparar a alimentação dessas pessoas. As famílias se organizaram nas salas. E a prefeitura está vendo onde abrigá-las, já que as aulas precisam recomeçar. A situação é difícil e muito triste”, lamenta Lenice. Se pudessem, essas famílias escolheriam mesmo era ficar ali, pois foram bem acolhidas e sempre viveram em situação de risco e pouco alimento. “Aqui a gente tem de tudo. Num tá faltando nada. Agora a gente sabe que num pode ficar aqui, né?”, diz triste dona Lourdes. As famílias saíram do local na segunda quinzena de junho.

Parte dos/as desabrigados/as da escola ficou em um salão que a Igreja Católica tem no vilarejo da usina. Já a família de dona Lourdes vai para uma pequena escola que está fechada, são 22 pessoas para alojar.  Dona Lourdes foi uma das sete famílias que teve a casa derrubada pela administração Usina Cucau. Isso mesmo, a usina pôs o trator para derrubar sete casas que foram ocupadas por famílias desabrigadas na cheia de 2010. Ao saírem das casas, no dia 28 de maio, quando estavam sendo invadidas pelas águas, levaram poucas coisas e deixaram o restante para tirar depois. Na madrugada do mesmo dia, a usina mandou tratores derrubar as casa por cima de tudo o que tinha dentro. 

“A usina sempre queria derrubar onde a gente morava. Agora eles derrubaram, com cama, guarda-Em roupa. Na hora da cheia ninguém conseguiu tirar nada. Só tirou coisa pouca. Faltaram cama, estante, a mesa com quatro cadeiras, o guarda-roupa. Eles não deixaram tirar mais nada. De noite eles derrubaram e botou vigia pra ninguém tirar o que ainda tivesse lá dentro. Meu genro perdeu o material dele e a bicicleta. O que tinha no arruado, não se salvou nada. Se eles iam derrubar tudo, por que não deixou a gente tirar o que a gente tinha dentro? É por isso que a gente fica triste. Então a minha situação tá assim”, lamenta ela.

E é assim que quem pode ajudar e contribuir para diminuir o sofrimento de pessoas que já são desassistidas, piora ainda mais. Pior é saber que essas famílias são trabalhadoras dessa mesma usina. São safristas, trabalham de seis em seis meses no corte de cana-de-açúcar, plantio, adubação. São vítimas da injustiça social que ronda a Zona da Mata pernambucana há séculos, desde a formação dos coronéis dos engenhos de açúcar.