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O Grito dos Excluídos

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17/09/2020

Foto PH Reinaux

O Grito dos Excluídos

Conversamos com Padre Reginaldo Veloso, um dos assessores do Movimento de Trabalhadores Cristãos, MTC, e do Movimento de Adolescentes e Crianças, o MAC, sobre 26º edição do Grito dos Excluídos. O Grito é um movimento social da luta popular, que acontece desde 1995 no Brasil inteiro, comemorado no dia 7 de setembro.

Centro Sabiá: Para começar, o que é o Grito dos Excluídos?

Padre Reginaldo: O grito dos excluídos é uma das melhores coisas que tem acontecido em termos de pastoral social e de movimento popular. Pela 26º vez, vamos ter mais uma edição do Grito dos Excluídos, que nasceu no seio das pastorais sociais da Igreja Católica, juntamente com algumas outras igrejas cristãs, com alguns movimentos populares de expressão maior, movimentos sindicais também, e que, todos os anos, no Dia da Pátria, leva às ruas e, nesse contexto de pandemia, às mídias, o grito dos excluídos e excluídas desse país, um clamor por vida, justiça, igualdade, direitos e paz. 

Centro Sabiá: Quem são esses excluídos, essas excluídas, que o Grito luta? Para quem é esse grito?

Padre Reginaldo: Somos todos convocados a sairmos às ruas, e a gritarmos pelos nossos direitos, por democracia, por vida em primeiro lugar. Então, esse grito é uma convocação para todos os trabalhadores e trabalhadoras, todos os oprimidos e oprimidas, todos os excluídos e excluídas. Do campo e da cidade. E para as pessoas que se solidarizam com a causa dos excluídos, dos oprimidos, o sentido de sairmos às ruas gritando por vida em primeiro lugar, por democracia, por direitos. E nesse contexto de pandemia, quem não se sente à vontade para sair nas ruas, pelos riscos que está correndo, e prefere utilizar as mídias, é uma nova maneira de nos comunicarmos.

Centro Sabiá: O tema da movimentação desse ano é vida em primeiro lugar. Qual o sentido desse tema, sobretudo no meio dessa pandemia da Covid-19?

Padre Reginaldo: O lema geral do Grito dos Excluídos há muitos anos que é este, Vida em Primeiro Lugar. E cada ano se escolhe temas e lemas específicos. Esse ano, vamos gritar pelas ruas ou pelas mídias “Basta de miséria, de preconceito e de repressão. Queremos trabalho, terra, teto e participação”. Esse é o grito específico. A situação ainda se complica quando se tem detalhes como o preconceito. Grandes faixas da população, que são especialmente excluídas por determinadas razões, que não justificam a grande maioria da população desse país, que é negra ou parda, já é vítima de muitas injustiças. As mulheres, por exemplo, vítimas de tanto machismo. Um machismo que chega a ser um complicador com essa necessidade do isolamento social, essa aproximação muitas vezes, em vez de ser oportunidade de estar junto, de cuidar da melhor maneira uns dos outros, têm sido a oportunidade, para muita gente, de sofrer as consequências do descontrole emocional, do preconceito machista, muitas sendo maltratadas, até mortas, infelizmente. Vamos fazer da oportunidade um grito pela vida, um grito pelo fim de tudo aquilo que nos infelicita, e por tudo aquilo a que nós temos direito e precisamos ver acontecer em termos de políticas públicas, que garantam trabalho, que garantam moradia, que nos garanta, sobretudo, o direito de participar.

Centro Sabiá: Como o Grito dos Excluídos dialoga também com essa situação de pandemia?

Padre Reginaldo: Um país como o nosso, da situação da grande maioria do povo como está, não justifica mais do que sairmos às ruas, que utilizemos as mídias, que gritemos por vida em primeiro lugar, que gritemos contra a miséria, contra as forças que nos sufocam quando não somos a favor da repressão, contra os preconceitos todos que aumentam os sofrimentos de tantas pessoas por questão de raça, de sexo, de orientação sexual. Temos mais é que gritar! Se não pudermos ir às ruas, por cuidado com a nossa saúde e com a saúde dos demais, que possamos utilizar os meios que nós temos à disposição, para acordar quem ainda dorme, animar quem está desalentado, nos enchermos de esperança, e da vontade de vencer e fazermos valer pelo nosso grito os nossos direitos. Pelo menos uma certeza nós temos: há alguém que escuta, que é o nosso Deus. 

Centro Sabiá: Qual a grande necessidade de hoje termos um movimento como esse, o Grito dos Excluídos, no Brasil?

Padre Reginaldo: Se há um ano que o grito dos excluídos e excluídas tem pleno sentido, é este ano de 2020. Nunca nesse país se viveu de maneira mais escancarada a contradição de um país rico e desigual. Nunca tivemos a condição que temos agora, de enxergarmos as chagas, as feridas que infelicitam, adoecem, matam a vida de nossa gente, na maioria do povo, que é justamente um povo que tem fome e sede da justiça, que quer ver esse país com igualdade, com irmandade e com paz verdadeiramente. Essa pandemia trouxe todo mundo para a realidade. Seria tão bom que os próprios excluídos e excluídas, que os pobres, que os trabalhadores e trabalhadoras desse país, tomassem consciência plena nesse momento do que acontece em suas vidas, do descuido que os poderosos desse país tem. Olhamos para o Congresso Nacional, 2/3 que está ali para se aproveitar em benefício próprio, temos apenas, quiçá, 1/3 de gente realmente que representa os interesses da classe trabalhadora do campo e da cidade. Então, somos um país doente por muitas razões. Mais do que nunca sentimos o que acontece com a nossa terra, com as nossas águas, com o nosso ar, com a nossa agricultura, com a nossa alimentação. Um país que apodrece por causa de tanto veneno, de tantos agrotóxicos, um país que tem sua terra, suas águas e seu ar contaminados, contagiado por tanta coisa ruim, e é isso o que respiramos, é isso que comemos, é isso o que inalamos, e é no meio de tudo isso que temos que viver nossas vidas. 

Centro Sabiá: Pensando em todo o cenário político atual do Brasil, e também em Pernambuco, por que devemos lutar pela vida em primeiro lugar? 

Padre Reginaldo: Lutar pela vida é tudo quanto importa, quanto é necessário, quanto é urgente. Todas as horas do dia, especialmente num país em que vida é agredida, é prejudicada pela falta de terra, pela falta de trabalho, de moradia, de educação pública de qualidade, de saúde pública de qualidade, pelas agressões à natureza, pelo racismo, pelo machismo, pela homofobia, enfim... A luta pela vida é a causa de todo dia, e de toda hora. E deveríamos travá-la nos aninhando uns aos outros, na família, nos locais de trabalho, na vizinhança, porque toda hora, é hora de nós sermos militantes, cuidarmos do bem maior que é a vida, e lutarmos pelo direito a viver plenamente como Jesus Cristo nos ensinou, “Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância”. A causa de Jesus é a causa de todo cristão, toda pessoa humana que tenha os olhos abertos para ver e encarar o que está acontecendo, e o que precisa ser feito.