Notícias

SEM JUVENTUDE, NÁO HÁ AGROECOLOGIA NA AMÉRICA LATINA!

Whatsapp



30/09/2019

Foto: Ronald Santos

Por Darliton Silva, comunicador popular do Centro Sabiá

Em formato de caravana, intercâmbio percorreu mais de 400 km conhecendo experiências de jovens agricultores/as

Entre os dias 22 e 26 de julho, os estados de Pernambuco e Paraíba receberam o Intercâmbio de Saberes nos Semiáridos da América Latina, em que se abordou a temática “Juventudes e Agroecologia”. O evento reuniu mais de 100 pessoas, entre jovens, mulheres, agricultoras/es e técnicas/os de organizações que trabalham com desenvolvimento rural no Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, Nicarágua, e El Salvador.

Em formato de caravana, o intercâmbio percorreu mais de 400 km conhecendo nove experiências de jovens agricultores/as, e teve início no Estado de Pernambuco, passando pelos municípios de Caruaru, Jataúba, Orobó, Bom Jardim e Vertentes do Lério, seguindo para a Paraíba e atravessando os municípios de Campina Grande, Mogeiro, Queimadas, Caraúbas, Juazeirinho e Solânea. A agenda contou com visitas a comunidades rurais que têm produção agroecológica, organização comunitária, produção de frutas e hortaliças, horticultura, gestão do conhecimento, permacultura, intensificação produtiva, sistemas agroflorestais, criação de animais, acesso à mercados e tecnologias de acesso a água construídas pelo Centro Sabiá e outras organizações que compõem a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA).

Em Pernambuco, os intercambistas puderem visitar e conhecer na prática as experiências da jovem Ana Cláudia Lopes da Silva e dos jovens Gildo José da Silva, Rafael Bezerra do Nascimento, Tone Cristiano Feliciano da Silva e Wallasson Francisco da Silva. Na Paraíba, os participantes visitaram e conferiram as experiências dos jovens Joab Luciano Rodrigues, José Raul Bezerra e Valéria Bezerra de Freitas, Mateus Manassés e Salvador Barbosa Sobrinho. O objetivo das visitas às propriedades dos/as jovens agricultores/as foi oportunizar aos participantes do intercâmbio conhecer a realidade, os saberes e as técnicas utilizadas pela juventude camponesa do Semiárido brasileiro para produzir, consumir e comercializar produtos livres de veneno e conviver com período de estiagem. 

Coordenador técnico pedagógico do Centro Sabiá e Mestre em Agroecologia pela Universidade Internacional de Andaluzia, Carlos Magno Moraes falou da importância, da satisfação e dos desafios do Centro Sabiá neste processo de troca de saberes entre as juventudes da América Latina: “Para nós do Sabiá, uma organização que compõe a Plataforma Semiáridos da América Latina, fazermos este intercâmbio com a temática Juventudes e Agroecologia em nossos territórios foi muito importante, porque foi um momento de irradiar toda a potência que têm estes dois temas no Semiárido brasileiro. Saímos do intercâmbio muito satisfeitos, no entanto, com um grande desafio nas mãos, que é dar continuidade ao processo de consolidação deste vínculo entre as juventudes dos Semiáridos. A nossa ideia em breve é fazer um processo de intervivência entre estas juventudes, proporcionando por exemplo a jovens brasileiros ficarem por um mês no Chaco Trinacional conhecendo e vivenciando outras realidades e vice-versa”.

“O intercâmbio entre Semiáridos dos países latino-americanos foi bastante positivo, tivemos a oportunidade de mostrar para o mundo que agricultura familiar é viável, que a segurança e soberania alimentar e nutricional passam pela agricultura familiar e que as juventudes que participaram deste processo estão sendo bem acompanhadas pelos projetos e pelos programas, provando mais uma vez que os governos precisam investir cada vez mais na manutenção da juventude no campo, com propostas, com projetos e com ações efetivas”, disse Gilberto Silva, assessor da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG).

“No caminhar do intercâmbio a gente foi identificando questões, problemas e desafios comuns entres os países da América Latina que estavam representados. Foi enriquecedor perceber como as articulações das juventudes estão fortes no Semiárido brasileiro e ver como a agroecologia tem sido uma forma de conviver com Semiárido. Eu como uma pessoa que não sou da região não sabia como funciona tão bem, foi tão bom visitar as experiências e conhecer os casos de outros países!”, afirmou Ghiulia Cabral Martins, estudante, jovem do GT das Juventudes da ANA – Articulação Nacional de Agroecologia e do AUÊ – Grupo de Estudos em Agricultura Urbana da Universidade Federal de Minas Gerais.

Jovem agricultor e representante da Comissão de Jovens Multiplicadores da Agroecologia (CJMA), Gildo José da Silva recebeu a visita do intercâmbio em sua propriedade e disse que ficou feliz em ter visto que as pessoas se encantarem pela sua propriedade e pela forma como faz agroecologia. “É animador ver que todo o esforço é válido, são muitas as mãos que constroem tudo isso. São ações feitas com o coração e os frutos vêm naturalmente”, acrescentou Gildo.

Foto: Ronald Santos

Durante o desenvolvimento do Intercâmbio de Saberes nos Semiáridos da América Latina foram realizadas trocas de saberes por meio de exposições de símbolos, artesanatos, bandeiras de países e movimento sociais, sementes da paixão, vídeos, manifestações culturais dos povos presentes, para o fortalecimento das tradições culturais, além de noites culturais para animação através da cultura de cada região. E para reforçar as bandeiras de lutas, as juventudes fez uma carta política com os seguintes encaminhamentos: 

- Criação de uma rede de juventudes dos semiáridos da América Latina; 

- Garantia de políticas públicas direcionadas aos territórios Semiáridos;

- Acesso à terra própria, regularização, titulação e crédito para os\as jovens, mulheres e povos originários, para permanência nos territórios;

- Celebração e respeito às diferenças políticas, de credo, raça, orientação sexual, identidade étnica e de gênero, porque “sem diversidade, não há agroecologia”;

- Reivindicação dos direitos de identidade dos povos originários da América Latina - indígenas, camponeses e quilombolas;

- Garantia de consultas às comunidades afetadas por construções e megaprojetos que impactem as mudanças climáticas e o meio ambiente nos Territórios Semiáridos;

- Fortalecimento e garantia de uma educação contextualizada para a convivência com os Semiáridos, valorizando e preservando as línguas nativas dos povos originários.

O Intercâmbio foi realizado pelo Centro Sabiá, FIDA, Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), Programa Semear Internacional, Plataforma Semiáridos da América Latina, Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador (Cetra), Programa de Aplicação de Tecnologias Apropriadas (PATAC) e Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA), em parceria com a FUNDAPAZ, International Land Coalition, Terre des Hommes e Serviço Mundial de Igrejas (CWS).