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Sistemas Agroflorestais e Equilíbrio Ambiental

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07/07/2020

Foto: Acervo do Centro Sabiá

Sistemas Agroflorestais e Equilíbrio Ambiental

Confira nossa entrevista com Marcos Figueiredo, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e também sócio-fundador do Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá. Nesta conversa, falamos sobre sistemas agroflorestais, seu papel fundamental no equilíbrio ambiental e sobre como, através dos SAFs, podemos mudar a forma de produção de alimentos, transformando os mesmos em produções agroecológicas. Confira:

Centro Sabiá: Marcos, o que é um sistema agroflorestal e o que o difere das outras formas de cultivo?

Marcos Figueiredo: De uma maneira muito simples, a gente poderia dizer que o sistema agroflorestal ou agricultura agroflorestal é a combinação de diferentes tipos de plantas num mesmo roçado. Ou seja, é quando o agricultor planta junto o milho, o feijão, a fava o jerimum, o cajueiro, o coqueiro, a goiabeira, as palmas, o sabiá, o mandacaru. Tudo isso tem uma função dentro do sistema. Produção de grãos para a alimentação, a produção de frutas que também servem para a alimentação, mas também servem para as abelhas, a produção de forrageiras, como a palma, que serve para alimentar os animais, a produção de estacas através das plantas que produzem madeira. Então, o sistema agroflorestal ou agricultura agroflorestal é a combinação de todas essas plantas dentro de um mesmo roçado. Isso tem uma vantagem muito importante, porque produz alimentos e bens para a família durante todo o ano. 

Centro Sabiá: De que forma uma agrofloresta equilibra o meio ambiente?

Marcos Figueiredo: Se você observar um roçado onde existe apenas uma cultura, por exemplo, o milho, por exemplo, o algodão ou, por exemplo, a palma, toda agricultura e todo agricultor observam que é mais fácil aparecer uma praga aqui, uma praga acolá, às vezes muitas pragas. No milho, muitas vezes, aparecem muitas lagartas, na palma aparecerem as cochonilhas. Mas você nunca, quase nunca, vê uma praga atacando uma caatinga, destruindo uma caatinga. Por quê? Porque a caatinga ela tem uma alta diversidade de plantas. Então, ela está em equilíbrio, ela está em mais equilíbrio. Quando você fizer um roçado com alta diversidade de espécies de plantas de todos os tipos, o equilíbrio ambiental é maior e também você terá produção durante todo os meses do ano. 

Centro Sabiá: O SAF, ou Sistema Agroflorestal, é uma grande frente no combate aos pesticidas e agrotóxicos. Que diferença você pode nos mostrar entre um alimento produzido de forma agroecológica nas agroflorestas e um produto com uso de agrotóxicos?

Marcos Figueiredo: A diferença entre um sistema baseado numa produção ecológica altamente diversificada e uma produção com agrotóxico é a seguinte: é que o agrotóxico mata. As plantas, as frutas, os legumes que são produzidos com glifosato têm um alto grau de toxidade. Aos poucos, isso vai provocando um envenenamento nas pessoas que consomem. Vai levando a um enfraquecimento do organismo e um aparecimento de doenças, muitas vezes doenças muito graves, muito difíceis de ser curadas. Então, se você faz uma produção do ponto de vista agroecológico, você está eliminando essa possibilidade de envenenar o seu próprio corpo e envenenar o solo, envenenar o seu rio, o seu riacho, o seu poço. Também há outra grande vantagem, quando você faz uma produção sem veneno, sem usar agrotóxico. Todos nós sabemos que o agricultor tem que desembolsar uma grande quantidade de recursos para comprar veneno, para poder combater aquilo que se chama de praga. Então, se ele deixa de comprar na loja esses venenos, ele está fazendo uma economia muito importante para o bolso dele, ou seja, ao deixar de gastar, ele economiza recursos que pode utilizar para outras finalidades. Além do mais, ele manterá a sua terra mais saudável e mais produtiva. 

Centro Sabiá: É preciso ter algum grande conhecimento técnico para gerir e fazer uma agrofloresta? Por onde começar?

Marcos Figueiredo: Os conhecimentos para você fazer um sistema agroflorestal, uma agrofloresta, são conhecimentos simples, mas o agricultor precisa ir atrás desses conhecimentos. Como combinar no mesmo roçado diferentes tipos de plantas dando o espaçamento correto entre elas? Como combinar diferentes tipos de plantas sem que haja uma competição entre elas? Como distribuir essas plantas no espaço de forma que permita uma produção saudável de todas as plantas que ele está colocando no seu roçado? O agricultor pode buscar esse conhecimento através dos técnicos do Centro Sabiá ou das organizações que trabalham com a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). Mas também existem muitas experiências em diferentes regiões, do Semiárido, da Zona da Mata, de agricultores que já são praticantes da agricultura agroflorestal. Uma visita de intercâmbio pode ajudar muito esse agricultor que quer conhecer esse novo sistema de produção. Também se pode pesquisar nas redes sociais, na internet, no YouTube, aí também há um conjunto de informações importantes. [Confira aqui o vídeo Floresta que Refresca, do Centro Sabiá: https://youtu.be/_GnPCso_xrc]

Centro Sabiá: Nesses tempos de pandemia a gente vê que a agricultura agroecológica está fazendo frente no combate ao coronavírus, através da alimentação saudável. Como você vê as agroflorestas e agricultores e agricultoras agroflorestais também inseridos nessa luta, nesse combate ao coronavírus?

Marcos Figueiredo: No contexto da pandemia que estamos vivendo, que já vitimou mais de 50 mil pessoas e com mais de 1 milhão de pessoas contaminadas no Brasil, a agrofloresta, a agricultura agroflorestal de base ecológica é extremamente importante. Porque nós sabemos, todo agricultor sabe disso, que onde tem um solo forte a planta é produtiva, a planta é sadia. Assim, uma pessoa que se alimenta de uma comida forte, de uma comida ecológica, com alto valor nutricional, tem as suas defesas orgânicas mais fortalecidas. Então, uma pessoa que consome frutas, consome grãos, consome mel, tudo isso de procedência agroecológica, vai ter mais resistência para enfrentar essa crise sanitária que estamos vivendo, que foi provocada, diga-se de passagem, por esse modelo de agricultura industrial do agronegócio, que destruiu florestas, destruiu a natureza, destruiu biomas e foi entrando até em áreas sagradas, ecossistemas sagrados, permitindo que determinados vírus passassem de animais silvestres para seres humanos, onde aí se modificaram e se propagaram numa escala gigantesca.