Suape: uma empresa que desconsidera as pessoas no seu modelo de desenvolvimento

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Aclamada por governantes e empresários, em especial os de Pernambuco, como a obra do desenvolvimento econômico do estado e do Nordeste, o complexo Suape tem trazido diversos problemas para as populações do seu entorno. O complexo fica no litoral Sul do estado e causa impactos devastadores em especial para famílias agricultoras e pescadoras da região. Com o objetivo de interagir com as organizações e populações locais, e denunciar as arbitrariedades praticadas pelas empresas do complexo, foi criado na região o Fórum Suape. Nesta entrevista, um dos coordenadores e fundadores do Fórum, o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Heitor Scalambrini, fala dos problemas causados por Suape e da multa de mais de 2 milhões que ela recebeu da Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH/PE).

por Laudenice Oliveira (Centro Sabiá)

O Canto do Sabiá – O Fórum Suape foi lançado em janeiro, no Recife e no Cabo de Santo Agostinho, ele é formado basicamente de ONGs?

Heitor Scalambrini – A ideia inicial foi juntar organizações quem trabalham no entorno do complexo Suape com as questões sociais, do dia a dia daquelas populações que estavam sendo afetadas pelas instalações das indústrias no complexo. Mas ele não é só composto por ONGs, tem também o pessoal da academia, às vezes pessoas que fazem parte de organizações, mas estas ainda não se interessaram em entrar no Fórum e a pessoa entrou e se associou. Ele também tem como seus integrantes fundamentais pescadores, Agricultores e até trabalhadores do complexo de Suape que moram naquela região e que são diretamente atingidos pela implementação das empresas que estão chegando ali. Hoje são mais de 130 empresas que estão instaladas ali. Empresas altamente agressoras do meio ambiente.

OCS – Digamos que o Fórum conseguiu uma pequena vitória por esses dias, porque a denúncia que vocês fizeram levou Suape a ser multada pela CPRH em mais de dois milhões de reais.

HS – Pela documentação que dispomos podemos dizer que a empresa Suape está fora da lei. Mais de 15 Termos de Ajuste de Conduta (TACs) assinados entre a empresa Suape e os ministérios Público Estadual e Federal que não foram cumpridos e os pescadores estavam bruscamente afetados pelas obras dos estaleiros. Eles faziam as denúncias, mas não eram formalizadas à CPRH. Então foi feita a denúncia na Ouvidoria da CPRH e em consequência do relatório feito pelos técnicos que averiguaram a situação foram feitos dois autos de infração contra Suape. Um com uma multa de dois milhões e meio, por falta de licença para praticar explosões que afetaram rochas , corais, peixes, etc, e a outra foi por Suape não realizar os estudos aconselhados a serem feitos quando recebeu a autorização para se instalar na região. A empresa recorreu, mas do ponto de vista midiático foi importante pra gente , porque Suape estava tentando mudar sua imagem na região, devido a situação que estava ali instalada.

OCS – Que ações eles estavam fazendo para mudar a imagem?

HS – Criaram uma mesa para negociar com agricultores e outra com pescadores, mas ficam num jogo de empurra e não se resolve os problemas. A intenção era de melhorar a imagem. Porém a prática não mudou. Enquanto eles sentam à mesa de negociação as expulsões truculentas, até por milícias estavam sendo realizadas. E, segundo denúncias, comumente praticadas pela diretoria de gestão fundiária e patrimônio que usa de uma truculência que assusta as famílias. São pessoas armadas uniformizadas, até com o uso da polícia militar, com tropa de choque, com cachorros, como se as populações dali fossem criminosas.

OCS – Além da agressão ao meio ambiente, causada por essas empresas, que impacto elas têm provocado aos municípios e suas populações locais?

HS – Há um impacto causado aos moradores, os nativos dali. Mas isso não se fala muito. Eram cerca de 25 mil famílias vivendo ali. Uma população de quase 100 mil pessoas. Uma região plenamente habitada, por pescadores, porque ali era uma área de muito peixe, lagosta, crustáceos. Tinha os nativos e agricultores familiares  morando ali e foram os mais impactados. Foram praticamente expulsas das suas áreas, porque foram consideradas como posseiros, apesar das famílias já viverem ali há mais 100 anos. E sendo consideradas posseiras, num processo de indenização não se leva em conta o preço da terra, só as benfeitorias: os pés de coco, a plantação, as casas, muitas vezes choupanas, casa precárias. Isso, fez com que as indenizações fossem lá pra baixo, ficaram variando de 10 a 80 mil reais. Com uma indenização dessas não compraria nem uma casa ali no entorno de Suape, que é uma área super valorizada.

OCS – Além da expulsão da terra, que outros impactos essas populações sofreram?

HS – Outro impacto foi a mudança brusca do modo de vida dessas famílias, porque se observa que ser pescador não é uma profissão, é um modo de vida. Então você tira uma pessoa do modo de vida dela e decidi por ela que ela vai ter outro modo de vida: que vai morar na cidade que vai ter outro tipo de atividade para se sustentar. Isso é algo que a gente precisa refletir, essa maneira truculenta de lidar com a vida das pessoas. Fora isso, ainda tem o impacto nas cidades.Todos os municípios considerados estratégicos na região começaram a receber 50, 60 mil pessoas para trabalhar no complexo Suape. Isso trouxe um caos do ponto de vista do saneamento, da moradia, da mobilidade, da violência, da exploração sexual. E o Fórum questiona esse modelo de desenvolvimento que é predatório, que não leva em conta as pessoas e que não distribui a riqueza. Procuramos zelar pela preservação e conservação dos recursos naturais e denunciar em todos os níveis as violações de direitos humanos que estão ocorrendo naquela região.

Mais informação sobre o Fórum acesse: www.forumsuape.ning.com


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