Uma das famílias que gentilmente compartilhou algumas de suas sementes conosco foi a de Joelma. Joelma é casada com Roberto há mais de vinte anos, e o casal tem três filhos: Betinho, o mais velho, de 20 anos, Henrique de 18 anos, e o caçula Hugo, de 17 anos. Eles moram na comunidade de Pedra Branca, na Zona Rural da cidade de Cumaru, localizada no Agreste Setentrional, na região semiárida do estado de Pernambuco.

Joelma e sua família trabalham desenvolvendo um modelo de agricultura sustentável e agricultura agroflorestal desde o ano de 2004, quando foram beneficiários do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) e desde o começo seus filhos também fizeram parte do processo de implantação da agroecologia na residência da família. Atualmente, Betinho e Henrique trabalham fora durante a semana, mas nos finais de semana voltam para a casa e também fazem parte do trabalho.

A produção da família tem destino certo: uma parte vai para o consumo próprio; Joelma e sua família têm o privilégio de se alimentar com produtos livres de venenos e agrotóxicos. Já a outra parte é comercializada na própria comunidade de Pedra Branca.

Há um bom tempo a família organizou um banco de sementes em sua propriedade com algumas variedades que vem guardando, sempre com o intuito de reproduzir as espécies no ano seguinte. As variedades encontradas nesse banco vão desde plantas nativas frutíferas até sequeiras.

A ideia da organização de um banco de sementes veio, principalmente, com as dificuldades encontradas nos grandes períodos de seca. Algumas variedades de sementes estão ficando extintas e os bancos de sementes são uma ótima solução para aumentar a vida e a presença dessas sementes no mundo. A família de Joelma, por exemplo, hoje tem 10 espécies diferentes de sementes, que pode doar ou compartilhar, e outras que ainda estão em processo de multiplicação.

Dentre essas sementes que podem ser doadas, Joelma e sua família compartilharam conosco o milho-branco, que também é conhecido como milho-branco-de-angola. É também uma das variedades do grão mais resistentes às principais doenças que atacam os milharais. Seu tempo de produção é de aproximadamente 90 dias, e podem ser colhidas até duas safras dessa variedade por ano. A família conseguiu essas sementes com outras famílias da própria comunidade.

Outra semente que a família compartilhou conosco foi o Sabiá, que também pode ser conhecida como sansão-do-campo, e é um arbusto muito comum em áreas de caatinga. É uma excelente espécie para se usar na recuperação de solos degradados e também para fazer estacas e alimentar os animais.

E, por último, a terceira semente é a de baraúna, que é conhecida comumente como braúna, e é uma árvore de grande porte. Sua principal característica é que a madeira produzida por ela é extremamente resistente, ideal para a produção de vigas e usada em construções.



Dona Gilvanir Martiniano convive e vive com a agricultura desde que tinha sete anos de idade. Ela ia ainda pequena, na companhia de seus pais, para o roçado, e participava de todo o processo: desde a plantação até a colheita. Uma das lembranças de Gilvanir daquela época era a macaxeira que sua mãe cozinhava, produzida na terra da sua família. Hoje, Dona Gilvanir tem 47 anos e é moradora do Engenho Conceição, no município de Sirinhaém, na Zona da Mata de Pernambuco. Casada com Seu Edilson Pereira, Gilvanir é mãe de Everton, de nove anos.

Há algum tempo a forma de Gilvanir trabalhar com a terra mudou: hoje ela cultiva a sua terra utilizando métodos agroflorestais, que não só trazem uma variedade maior de produtos, como também ajuda a preservar a terra dando a ela um tratamento muito mais respeitoso. Na produção de Gilvanir e Edilson o que mais se destaca são as árvores frutíferas: graviola, pitanga e cajá.

Justamente por culpa dessa abundância em produtos surgiu a necessidade de beneficiá-los, com o intuito de dar uma vida maior ao que é produzido nas suas terras. No começo desse processo, as polpas produzidas por Gilvanir e Edilson eram feitas de forma caseira, e eram comercializadas na própria cidade de Sirinhaém, vendidas de porta em porta.

Com o aumento das demandas e da produção, foi então criada uma unidade de beneficiamento: a Unidade de Beneficiamento de Polpas Maria Zumira de Freitas. O nome é em homenagem a mãe de Gilvanir, que há muitos anos ensinou Gilvanir a tirar o sustento da sua família através da terra.

Gilvanir e Edilson decidiram compartilhar conosco sementes de duas árvores que se adaptam muito bem ao clima da Zona da Mata: a pitanga e a graviola. A pitanga é também conhecida como cerejeira-brasileira e é uma planta do tipo arbusto que pode chegar a até 10 metros de altura! Uma frutinha pequena e alaranjada, a pitanga é doce, mas ainda assim um pouco azedinha. Muito popular na nossa cultura, a pitanga é usada principalmente para fazer sucos.

Já a graviola é uma espécie tropical cuja árvore pode chegar a seis metros de altura. A polpa da fruta é bastante rica em vitaminas B e C, e podemos encontrá-la facilmente em forma de sucos, sorvetes e picolés. Outro grande benefício da graviola é que todas as partes da árvore têm propriedades medicinais, das folhas até sua raiz.

José Alexandre Gomes, mais conhecido como Seu Zezé, é morador da comunidade Sítio Serrinha, na cidade de Triunfo, no Sertão pernambucano. Casado com Maria Alves dos Santos, o casal tem dois filhos: Leonardo e Leandra.

Ao receber a proposta de doação das sementes para o calendário, a família de Seu Zezé ficou bastante feliz e entusiasmada. Afinal, através do cultivo agroecológico, Seu Zezé tem bastante consciência da importância de se utilizar as sementes crioulas, ao invés das sementes transgênicas. Ele ainda ressalta que as sementes crioulas são aquelas que tem uma boa qualidade e são resistentes as adversidades do clima. As sementes cedidas pela família são de três espécies que têm uma importância fundamental para agricultura familiar: o milho, o feijão e a fava.

A semente de milho que vem do Sertão está presente na família de Seu Zezé há mais de 60 anos, e é mais comumente conhecida como milho dente de burro ou milho dente de cavalo. É uma semente tardão, pois o tempo que leva do plantio até a colheita é de aproximadamente 120 dias; é uma semente ideal para regiões que enfrentam longos períodos de seca, pois ela é bastante resistente.

Outra semente que também está há mais de 60 anos na família de Seu Zezé é a semente do feijão vermelho, popularmente conhecido como feijão de arranca. Era plantado por seus pais no roçado e tem uma excelente produção, gerando grãos saudáveis. Do plantio à colheita, o feijão de arranca leva entre sessenta e oitenta dias, aproximadamente, para se desenvolver e também é bastante resistente aos períodos de seca.

Já a semente da fava tem uma história curiosa: Seu Zezé não gosta muito de comer fava, mas a qualidade da semente é tão boa que ele afirma, descontraído: “Eu não gosto de fava, mas já desta eu como uns carocinhos.” A família tem essa semente há apenas três anos, e seu período de desenvolvimento do plantio até a colheita é de aproximadamente nove meses.