Contos crioulos: Bem vindas/os ao Sítio Carnaubinha




Por Débora Britto (Centro Sabiá)

As sementes crioulas são riquezas das famílias agricultoras. Mais do que elementos de sobrevivência, guardam a sabedoria de gerações e fazem parte mesmo da memória afetiva de agricultores e agricultoras familiares do semiárido pernambucano. São sementes variadas que passam de mão em mão e contam histórias de famílias, lugares, de tempos passados e constroem, ainda hoje, o futuro de quem vive do e no campo.

Na segunda e última parte da série de reportagens Contos crioulos, a família de Alexandre e Soledade, agricultor e agricultora que há mais de 20 anos aderiu à agricultura agroecológica em Triunfo, no sertão do Pajeú pernambucano. 

Parte 2: Bem vindos ao Sítio Carnaubinha

 “Sejam bem vindos à nossa humilde casa. Muita paz e amor, que alegria em recebê-los”, diz a primeira página do caderno de capa dura decorado com adesivos coloridos que formam a mensagem de boas vindas aos visitantes de Maria da Soledade do Nascimento Silva e Alexandre Pedro da Silva, o Seu Alexandre e Dona Soledade, como são conhecidos.

A casa azul cercada de flores é o refúgio do casal que criou 7 filhos e são guardiões de mais de 20 espécies de sementes crioulas de milho, feijão, guandu, pimentas e outras tantas culturas.  A família Nascimento e Silva, que mora há mais de 20 anos no Sítio Carnaubinha, em Triunfo, sertão do Pajeú pernambucano, não tem porque disfarçar o orgulho de partilhar suas riquezas e sabedorias com outras famílias. 

O sítio é referência na agricultura agroecológica e ao longo dos anos já recebeu diversas visitas, intercâmbios e interessados em conhecer e aprender com a experiência da família que planta há tanto tempo sem veneno e em harmonia com a natureza. Como quem recebe antigos amigos, recebem estudantes, pesquisadores, agricultores e agricultoras de outras regiões.

Homem do mundo, quando mais jovem Seu Alexandre viajou e trabalhou fora por muitos anos, inclusive na cidade, no corte da cana e com cultivos de alimentos com agrotóxicos. Dona Soledade, por sua vez, assumiu a criação dos filhos e filhas, os cuidados com a casa e com a roça. Se os caminhos da vida a levaram a fincar raízes na casa, foi a permanência no campo que a tornou experiente conhecedora e protetora das sementes tradicionais que cultivou ao longo dos anos para alimentar a família. “Gosto de ficar mesmo em casa e na roça. E outra coisa é que tem muita gente que liga aqui para casa e eu fico também para receber os recados”, conta com tranquilidade. 


 “Sejam bem vindos à nossa humilde casa. Muita paz e amor, que alegria em recebê-los”. Foto: Débora Britto/Centro Sabiá

Herança de resistência 

“Não adianta ninguém dizer ‘essa semente é minha’. Não, essa semente é do povo. A gente que produz, foi gente lá de trás que trouxe e a gente vem cultivando há muitos anos, mas ela é do povo”, diz Seu Alexandre sobre a prática ancestral da agricultura familiar de guardar sempre uma parte das sementes para garantir o alimento na próxima estação. Ao longo do tempo, as próprias sementes crioulas, adaptadas e adequadas pela própria natureza à região, se tornaram herança passada de pais para filhos, mães para filhas, assim como o conhecimento de como plantar, quando colher, como cultivar.

Ele relembra a trajetória de algumas das sementes que ainda hoje tem, mas que vieram dos seus pais e avós e avôs. “Essa história do milho branco é incrível”, começa, com um quê de satisfação. “Essa semente foi através do meu pai. Os homens no passado tinham mania de quebrar o milho, fazer paiol, comer tudo quanto é semente e depois ir pegar semente ‘mais forte’ com os patrões. Você levava uma lata e tinha que devolver uma lata e meia”, explica sobre o modelo de negócio a que os agricultores tinham que se submeter.

“Um dia meu pai foi buscar um milho na casa de Véi Ernesto lá na cidade. Aí ele foi lá e mandou separar uma espiga de milho e disse que era para meu pai não ir mais pegar lata de milho. Ele disse: chegar em casa cace um muro de formigueiro e plante essa espiga de milho para você não vir mais aqui em casa pegar milho!”, conta. E assim foi. De lá para cá, tanto o pai de Seu Alexandre como ele próprio, os irmãos e irmãs não esqueceram a lição de guardar sementes para garantir o futuro. “Nós era tudo moleque novo na época, mas eu não estava lembrado direito dessa história, mas depois meu irmão mais velho contou essa história”, explica.

Entre as sementes que o casal se orgulha de preservar estão o feijão costela de vaca (corda), feijão enrica-homem, fava boca de peixe, orelha de onça, orelha de velho, manteiga, rajada marrom, milho branco, da palha roxa, asteca e o híbrido (que não confundir com transgênicos, são resultado do cruzamento de variedades diferentes, seja na forma natural ou em laboratório).

Outras sementes, no entanto, tem uma história triste, mas de força e resistência por trás dela. “A semente mais ruim que a gente tem aqui e que eu não deixo de ter é esse andu (feijão-guandu) preto. A gente só come se for por fome e eu não deixou de perder porque foi o que matou a fome da gente na seca”, lembra o agricultor. Segundo ele, é uma variedade mais resistente que as demais e foi a semente que garantiu a sobrevivência da sua família e de muitas outras em uma das secas que assolou a região no passado. “Tem que escorrer duas águas para poder ficar melhor. Fica muito roxo a água, o caldo fica preto. Mas só que antigamente a gente comia, né? A gente comeu tanto que abusaram”, conta em tom de brincadeira, mas falando sério.

 “Desde os sete anos que eu trabalho na roça”, comenta Dona Soledade. O casal, que completa 40 anos de casado em dezembro deste ano, tem histórias de sobra sobre sementes que ganhou, trocou e deu a outras famílias. “As famílias tudo era perto uma da outra, tanto da minha como da dela. Quando um não tinha, o outro dia e aí trocava com outra família”, explica a agricultora. 

Certa vez, ela conta que um senhor conhecido na região por Antônio Claudino, já bastante velho, chegou um dia em sua porta para pedir que cuidassem de semente de quiabo que estava na sua família há gerações. “A semente mais antiga é esse quiabo aqui. Ele disse ‘eu trouxe essa semente porque eu sei que não vou poder botar mais roça que é para você não deixar perder essa semente’. Isso foi 1978 quando ele me deu essa semente”, conta.


A família é guardiã de pelo menos 20 sementes ciroulas de diversos cultivos. Foto: Débora Britto/Centro Sabiá

O jeito sério e os trejeitos duros de quem conscientemente procura disfarçar a graça e a leveza de como encara a vida Seu Alexandre não sustenta por muito tempo. Entre um olhar sisudo e outro, as piadas e brincadeiras vão tomando seus lugares à medida que o visitante se sente cada vez mais em casa. Esse mesmo olhar sério diz muito sobre o histórico de resistência e história da família, que não é de agora, e que apesar das adversidades enfrentadas não é motivo de tristeza, mas sim de orgulho de trabalhar na terra e viver com dignidade e saúde daquilo que ela dá.

Quando ouve a esposa lembrar da perda da filha e do filho com tristeza, trata logo de despachar o assunto sem conseguir esconder o olhar de ternura com que a olha e procura animá-la. Das mãos aos olhos marcados pelo tempo e pelo trabalho de uma vida, o cuidado e a dureza se misturam e complementam-se no trato do roçado, na delicadeza e preocupação que a família tem com cada planta nascida na propriedade. 

Saúde da terra para a família

Na Agrofloresta do sítio Carnaubinha, Dona Soledade mostra com satisfação as cebolinhas, manjericão, jerimum e outras culturas que se espalham pelo terreno entre fruteiras, plantas rasteiras, flores e grãos. 

Se perguntar a Dona Soledade o que não pode faltar na roça e na mesa da família, a resposta é certeira: feijão e milho. “E o milho é o mais importante de tudo porque se não tiver mais nada para comer dá para fazer um angu e faz um cuscuz com sal”, defende com firmeza. Para ela, a prova viva de que os alimentos das sementes crioulas são fundamentais para a saúde da família é a própria experiência com seus filhos e filhas e de sua mãe que criou ela e mais 10 filhos, segundo conta, sem necessidade de levar ao médico. 

“Os meninos que são criados com comida de milho é tudo mais sadio. O remédio era do mato mesmo que ela fazia. Azeite de mamona era o remédio que ela dava. Já fiz muito para meus meninos, mas hoje as mães deles que cuidam dos netos. Eu fazia lambedor de hortelã, de casca de jatobá”, explica.

O mel para o lambedor não precisa vir de fora já que a família também cria abelhas. Seu Alexandre se encarrega de cuidar do apiário e Dona Soledade ajuda na retirada do mel dos favos. As italianas da família produzem mel da flor nativa de cor azul claro chamada Capelinha. “É o melhor mel que tem aqui”, comenta orgulhoso Seu Alexandre.

Com o tempo, no entanto, práticas nocivas levaram a família a ter que recorrer a hospitais e médicos para tratar doenças que mal existiam na região. Soledade lembra que um vizinho fazia carvão e, a partir disso, os filhos mais novos desenvolveram problemas respiratórios. “Os outros foram sadios criados com as coisas da terra mesmo”, garante.

Como conselho, Dona Soledade e Seu Alexandre não titubeiam na resposta: guardar um pouco para o futuro. Essa lição, têm certeza, seus filhos e filhas, mesmo os que não seguiram no campo, aprenderam bem. “Os pais da gente já dizia assim ‘quando for plantar se tiver 2 litros de semente, plante 1 e aguarde o outro. Todo ano a gente sempre planta um pouquinho e guardo o resto. Eu sempre tenho minhas sementes para plantar todo ano”, diz Dona Soledade. As sementes crioulas e sua sabedoria seguem vivas.

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