Contos crioulos: as pessoas e histórias por trás das sementes crioulas no Sertão do Pajeú pernambuca



Por Débora Britto (Centro Sabiá)

As famílias agricultoras são elementos chave na passagem e preservação dos conhecimentos tradicionais construídos ao longo de gerações. Na História, as sementes crioulas foram importantes para a alimentação e a resistência das famílias no campo em períodos de seca e privação. São as agricultoras e agricultores que hoje guardam, estocam e compartilham suas sementes da resistência que garantem o futuro da agricultura familiar. Na série de reportagens Contos crioulos famílias agricultoras contam as histórias por trás das sementes crioulas que há gerações passam de pais e mães para filhas e filhos no Sertão do Pajeú pernambucano. 

Parte 1: Serrinha, Triunfo 

Localizado no meio da serra que leva à cidade de Triunfo, o Sítio Serrinha se estende pelas encostas do revelo da paisagem. A vista que mereceria uma moldura impressiona com o contraste do céu azul com o sol forte e as cores das muitas flores da família de Maria Alves dos Santos e José Alexandre Gomes, casal mais conhecido por Seu Zezé e Dona Maria. Junto aos dois filhos, Leandra e Leonardo, de 21 e 24 anos, respectivamente, vivem e produzem no sítio desde 2004. 

Acompanhados pelo Centro Sabiá nos últimos dois anos, a família conta o quanto foi importante conhecer mais sobre Agroecologia e os modos de produzir utilizando os saberes tradicionais e recursos da própria natureza para produzir alimentos que atualmente garantem a segurança e soberania alimentar dos membros da família. 

O que não vem diretamente da terra é adquirido pelas mãos que trabalham no campo e na comercialização de alimentos e produtos beneficiados por Dona Maria e Lea, sua filha. Com banca na Feira de Triunfo, que acontece sempre aos sábados, Maria levanta de madrugada para subir a serra e chegar no centro da cidade onde monta a estrutura da barraca e começa a preparar as comidas que, necessariamente, tem de ser feitas na hora. Mugunzá, cuscuz, sucos e outras comidas típicas. Tudo natural e fresquinho. Para adiantar, os bolos são feitos no dia anterior.  Já na quinta-feira começam os preparativos para a feira e são os dias mais complicados para sair de casa, conta Maria que até reclama do jeito caseiro de Seu Zezé. “Para ele sair de casa é um sacrifício, ele adora isso aqui. A feira é o que mobiliza todos nós a sair”, diz ela. 

A terra da família hoje é só um pedaço do que era a propriedade original, segundo conta Seu Zezé, também conhecido como “Zezé de doutor Rui”. “Eu trabalhava para Doutor Rui por mais de 20 anos e depois que ele se desfez das propriedades, eu comprei essa parte”, explica.

Zezé, aos 66 anos, lembra o tempo de trabalho na fazendo em que se plantava café, feijão e milho em grandes quantidades, além da criação de animais. Naquela época, como empregado, era comum usar agrotóxicos e sementes “dadas pelo governo” na produção. “Porque a quantidade de pés de café era impossível não usar os insumos”, comenta Zezé. No entanto, a insatisfação com a situação apareceu ainda durante o trabalho quando colegas começaram a adoecer, chegando alguns a até desfalecer após aplicação dos venenos na lavoura.

Logo que se tornou agricultor por conta própria, Seu Zezé aboliu de vez o uso de químicos e passou a guardar sempre um pouco das sementes de cada lavoura. Antigamente em garrafas de vidro, colocando cinzas em um pano para fechar e evitar estragar as sementes, hoje acomodando pilhas de garrafas pet reaproveitadas para o estoque de sementes crioulas.

Preservar e compartilhar 

Em um galpão onde guardam ferramentas para o trabalho no campo estão empilhadas dezenas de garrafas pet de que se apresentam com cores diferentes para cada semente de feijão, fava, milho e outras mais raras que Seu Zezé guarda com orgulho e zelo. “Eu faço questão de guardar sempre as sementes de todo plantio. Isso porque a gente não sabe o dia de amanhã, então guardamos porque pode ser que não dê certo, mas aí você tem sementes para recomeçar”, orienta. Nas contas dele, há sementes guardadas há mais de 2 anos que ele não plantou novamente. “Não faz mal, eu me preocupo mais em ter a segurança de ter as sementes e de poder dar para alguém que esteja precisando”, conta.

Após longos períodos de seca, Seu Zezé pode comemorar que não perdeu muitas variedades de milho. Ao contrário, já ajudou inclusive famílias agricultoras de outras regiões a recuperar semente que haviam perdido. “Cheguei um dia em um intercâmbio e conheci uma agricultora do agreste que havia perdido um tipo de milho que meu pai já plantava quando eu era criança. Eu dei algumas sementes a ela e depois de uns anos ouvi falar que ela já estava trocando a semente com outras famílias”, lembra com um tom de satisfação.

Entre as sementes que não conseguem sequer se imaginar sem elas, Seu Zezé e Dona Maria citam os milhos asteca, “dente de burro”, o feijão branco, fava vermelha com branco. Até de mucuna, espécie de fava preta que serve como alimento para animais, Seu Zezé tem devido à vocação de guardar e estocar. “Ela nascia tem muitos anos e eu deixava. Todo ano quando a gente vai limpar a gente não arranca tudo. Aquela planta que você não usa muito você deixa um pézinho, dois”, dá a dica.

Seu Zezé se orgulha de sua terra agroecológica, onde não usa nenhum  tipo de veneno / Foto: Débora Britto - Acervo Centro Sabiá

Variedades de hortaliças, flores nativas e exóticas são as meninas dos olhos de Dona Maria que cultiva com cuidado e paciência mudas de alface, manjericão, alecrim, tomates, rosas e outras. Além da produção para a própria família, as mudas são outras oportunidade de geração de renda para a casa, segundo conta Maria. 

A família cultiva bananas da terra, prata e maçã. “Essas bananeiras a gente tem há muito tempo. Precisa cuidar para não perder aquela que a gente vê que dá certo. Nós pegamos uma que cresce bem e plantamos mais espalhadas porque já vimos que quando as que nascem logo do lado não são tão saudáveis”, explica o agricultor com a sabedoria de uma vida lidando com a terra.

Uma parte da produção é de responsabilidade de Leonardo. “Eu dei a ele essa área e ele cuida de tudo. E o que ele ganha vendendo na feira é dele já que ele trabalhou e precisa ter o dinheiro dele, não é?”, diz Seu Zezé, que garante entender a importância de valorizar o trabalho dos jovens na agricultura familiar. Segundo ele, se não houvesse o reconhecimento do trabalho do filho e da filha eles rapidamente teriam vontade de deixar o campo e buscar outras oportunidades na vida.

Confira a Série fotográfica Contos crioulos clicando aqui.

 

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