Troca de saberes marca Encontro Territorial do Agreste

Agricultores e agricultoras se reuniram na área rural de Caruaru para debater a construção de um território agroecológico no Agreste de Pernambuco



Por Eduardo Amorim (Centro Sabiá)

Mais de 100 pessoas se encontraram no Santuário das Comunidades, área rural de Caruaru, no primeiro dia do Encontro Territorial Saberes do Semiárido. No dia seguinte, agricultores e agricultoras de 30 famílias montaram 12 barracas na Praça do Marco Zero da cidade e fizeram uma feira agroecológica, repleta de produtos representativos dos municípios ali presentes. Em cada um de seus momentos, o Encontro Territorial do Agreste foi uma grande troca de informações, saberes e produtos.

Realizadas no fim de julho, nos dias 29 e 30, as atividades foram organizadas pelo Centro Sabiá e protagonizadas por agricultores, agricultoras, jovens, mulheres, gestores públicos e técnicos de diversas cidades da região. Coordenador Executivo da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) pelo estado de Pernambuco e coordenador geral do Centro Sabiá, Alexandre Pires lembrou da necessidade da construção do território agroecológico no Agreste. No entanto, as famílias agricultoras colocaram que um começo fundamental para isso fosse o acesso à terra, através da Reforma Agrária.

Não foram raros os momentos em que a troca de saberes entre camponeses e camponesas foi evidenciada. Em grupos: jovens discutiam dilemas familiares como o de quem trabalha no campo e quer participar da divisão da renda familiar, integrantes da Rede Espaço Agroecológico trocavam informações com pessoas que atuam em pequenas feiras na região, mulheres falavam das suas experiências no campo e para conseguirem ser reconhecidas nas suas famílias. Presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável de Surubim, o agricultor José Inácio fez questão de entregar o Plano de Desenvolvimento Sustentável do Município para o coordenador do Sabiá no Agreste, Carlos Magno.

Em um dos momentos mais simbólicos dos dois dias do Encontro Territorial Saberes do Semiárido, os agricultores trocaram sementes crioulas e também suas experiências com aquelas plantas. Algumas vezes a troca saia simplesmente dos aspectos técnicos, para passar também pela vivência de cada um, como na conversa entre os agricultores José Gomes da Silva (Seu Dedé, do Sítio Serra Verde) e Antônio Teixeira, do Sítio Riacho e da Cooperativa da Agricultura Familiar (Coopaf), em São João, município que tem uma longa história de plantio do feijão.

A Coopaf já soma cerca de 30 espécies de sementes crioulas (feijão e fava) e tem como proposta unir agricultores/as familiares para ainda em 2015 iniciar a comercialização de grãos que são sabidamente saborosos e têm mercado, como o feijão gordo e o crioulo. Mas Antônio Teixeira, além de trocar sementes com Seu Dedé, fez questão de ouvir as histórias do seu colega, que também tem um banco de sementes, mas não vende o feijão e compreende a agricultura como "a única forma de ver a mesa da família completa".

O representante da Cooperativa recebeu algumas sementes de Feijão Leite, que ele contou que chega a ser vendido por R$800 a saca em algumas feiras de grandes cidades. E prometeu a Seu Dedé lhe arranjar alguns grãos do feijão enxofre, que o agricultor cultivou por muitos anos, mas acabou perdendo por conta da seca e deixando de ter para manter a variedade da sua produção.

Apesar de terem perspectivas bastante diferentes na agricultura, ambos tinham uma série de informações para trocar sobre plantio de feijão canapu, copinha, caiana, café, mulatinho de cacho ou da vargem rosa e sobre muitas outras roças que mantém em suas propriedades. Na sua simplicidade, Seu Dedé não se nega a fornecer suas sementes selecionadas para seus vizinhos e garante "na minha casa não gosto de ter pra mim, sempre tem que ter para dividir com os vizinhos e as crianças que aparecem".

Apesar das muitas variedades pouco conhecidas, Seu Dedé diz que o seu feijão preferido é um que vem sendo cultivado desde os seus avós. "Essa semente de feijão preto copinha vem dos meus avós, ele parece com o tradicional, mas é menor e muito mais gostoso". Para quem, como o repórter, nunca teve oportunidade de saborear nada muito diferente das cinco ou seis variedades de feijão que existem nos supermercados de todo o Brasil, resta sonhar com a possibilidade de realmente a Coopaf começar a comercializar essas espécies mais raras ou com a tradição de estar sempre de portas abertas e mesa cheia do agricultor nordestino.

Mas para não ficar só na imaginação, no dia 30, a feira agroecológica realizada no Marco Zero mostrou a todos que passaram pela movimentada rua produtos que muitas vezes estão esquecidos na vida de quem mora em uma grande cidade. Não foi difícil ver senhoras parando para comprar a fruta da palma, trabalhador atravessando a rua para buscar o famoso café de Taquaritinga do Norte, muita gente admirando o artesanato de Cumaru, jovens buscando comprar frutas sem agrotóxicos e agricultores buscando as sementes crioulas das hortaliças, que eram vendidas em uma das bancas.

Representando a Associação dos Agricultores e Agricultoras Agroecológicos de Bom Jardim (Agroflor) e a Rede Espaço Agroecológico, que mantém as feiras das Graças e Boa Viagem, no Recife, Adeildo Barbosa, fez questão de dizer no microfone que ficou muito satisfeito com a recepção dos moradores de Caruaru e que a experiência da Rede pode ajudar no processo de mobilização para garantir um espaço e organizar os interessados em participar da feira em Caruaru. Ele lembrou que há 18 anos se iniciou a primeira feira agroecológica do Recife e que houve muitas discussões com o poder público para se definir o local e a garantia das condições básicas de funcionamento, mas através da mobilização foi possível estabelecer um diálogo “que não foi fácil, mas deu resultados”. E é necessário na construção do território agroecológico do Agreste.

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